O que explica a distribuição da araucária?

15 jan, 2026

Você já percebeu como a araucária (Araucaria angustifolia) ocorre de forma mais marcante no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mas aparece apenas em manchas isoladas em São Paulo e Minas Gerais? Com base em análises de DNA, registros de pólen fóssil e modelos climáticos sobre o passado, um estudo buscou esclarecer os fatores que promoveram a distribuição da espécie, desde o final da Era do Gelo até os dias atuais. A pesquisa foi realizada por um grupo de pesquisadores, liderado por Mariana M. Vasconcellos (USP).

A distribuição disjunta da Araucária é o resultado de uma complexa interação entre mudanças climáticas ocorridas ao longo de dezenas de milhares de anos e a ação de povos indígenas que habitavam essas regiões.

Foram identificadas duas grandes populações genéticas de Araucária. Uma delas ocupa o Planalto Sul, abrangendo o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A outra está restrita à Serra da Mantiqueira, que se estende por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Essas duas populações se separaram há cerca de 149 mil anos, durante o penúltimo período glacial, quando mudanças climáticas remodelaram os ambientes do Sudeste e do Sul do país. A partir daí, cada uma seguiu um caminho próprio de expansão.

O frio que impulsionou a floresta no Sul

No Sul do Brasil, a Araucária começou a se expandir há cerca de 70 mil anos, ainda durante o Último Período Glacial, muito antes da chegada dos humanos à América do Sul. O clima da época, mais frio e úmido, favoreceu a germinação das sementes e a ocupação de grandes áreas do planalto.

Essa expansão atingiu seu auge por volta de 16 mil anos atrás, durante o Evento de Heinrich 1, quando o desprendimento de icebergs no Atlântico Norte provocou picos de umidade no Brasil. Nesse período, a Floresta com Araucárias atingiu sua maior extensão histórica.

 

O papel dos povos indígenas na dispersão

Os dados genéticos indicam que os povos indígenas também tiveram um papel decisivo na distribuição da espécie ao longo do território. A pesquisa encontrou sinais de alto fluxo gênico entre populações distantes, um padrão compatível com a dispersão de sementes mediada por comunidades humanas.

O consumo do pinhão, semente da Araucária, é documentado há pelo menos 4 mil anos. Registros arqueológicos, como restos alimentares, pinturas rupestres e análises de tártaro dentário, indicam que a Araucária era uma fonte fundamental de alimento. Além disso, as áreas onde estão localizados assentamentos indígenas coincidem com a distribuição atual da floresta, sugerindo que os grupo se organizaram em torno da espécie.

 

Uma expansão mais recente na Mantiqueira

Na Serra da Mantiqueira, a história é diferente. A população de Araucárias dessa região começou a se expandir apenas há cerca de 3 mil anos, já durante o Holoceno. O crescimento coincide com um período de aumento das chuvas e temperaturas mais amenas, associado ao fortalecimento das monções de verão na América do Sul.

Embora também houvesse presença humana nesse período, o estudo aponta que há poucas evidências de que os povos do Sudeste tenham desempenhado um papel tão direto na dispersão da Araucária, como ocorreu no Sul.

 

Futuro sob ameaça

Depois de milhares de anos de relativa estabilidade climática, as populações de Araucária enfrentam hoje uma nova pressão. A fragmentação das florestas, a redução do tamanho das populações e o aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas representam riscos especialmente graves para a população da Mantiqueira.

Os pesquisadores alertam que, sem ações efetivas de conservação e restauração, a espécie, que é um dos maiores símbolos da Mata Atlântica, pode perder grande parte de sua distribuição nas próximas décadas.



Registros de mudas de araucária produzidas no Viveiro Jardim das Florestas e áreas de distribuição da espécie. Fotos: Arquivo Apremavi, Wigold B. Schäffer e Thamara. S. de Almeida.

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto
Foto de capa: Wigold Schäffer

 

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