The Last of Us da Mata Atlântica: nova espécie de fungo é descoberta
Um pequeno filamento encontrado no chão da floresta, conhecido cientificamente como estroma ou estrutura reprodutiva, revelou uma nova espécie de fungo “zumbificador” da Mata Atlântica brasileira.
Batizada de Purpureocillium atlanticum, a espécie foi descrita a partir de um exemplar coletado em novembro de 2022, no estado do Rio de Janeiro, e integra um grupo fascinante de fungos conhecidos por parasitar e matar seus hospedeiros. Esses organismos ganharam fama popular por inspirarem narrativas, como a série The Last of Us, mas, na natureza, desempenham papéis ecológicos essenciais.
No caso dessa nova espécie, o hospedeiro é uma aranha que vive no solo da floresta, em sua própria toca. A espécie infecta aranhas-alçapão, que vivem protegidas em galerias subterrâneas fechadas por uma estrutura semelhante a um alçapão. Após a morte do animal, o fungo cobre quase todo o corpo da aranha com um micélio branco e algodonoso. Em seguida, uma estrutura reprodutiva de até dois centímetros emerge do cadáver, atravessa o alçapão e se projeta acima do solo para liberar esporos e dar continuidade ao ciclo de vida.
Trata-se de uma estratégia evolutiva altamente especializada, como explica Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina e coordenador do MIND.Funga (Monitoring and Inventorying Neotropical Diversity of Fungi) vinculado ao Laboratório de Micologia da instituição, em entrevista à Apremavi: “quando falamos de parasitas, muitas vezes são relações específicas que evoluíram há milhares de anos. Em nível de espécie, são relações interdependentes”, afirma Elisandro. “Qual o aspecto negativo disso? Nenhum!”

Parte da prancha do artigo científico de descrição da espécie, onde é possível observar a estrutura reprodutiva da espécie em cinza, a aranha morta (na parte inferior, onde há terra) e ver que ele cresceu para fora do chão da floresta, além de um registro microscópico dessa estrutura reprodutiva. Créditos: Araújo, J. P., Przelomska, N. A., Smith, R. J., Drechsler-Santos, E. R., Alves-Silva, G., Martins-Cunha, K., … & Antonelli, A. (2025). A new species of Purpureocillium (Ophiocordycipitaceae) fungus parasitizing trapdoor spiders in Brazil’s Atlantic Forest and its associated microbiome revealed through in situ “taxogenomics”. IMA fungus, 16, e168534.
Descoberta brasileira em campo e ciência inovadora
A descoberta ocorreu durante uma semana de campo na RPPN Alto da Figueira, em Nova Friburgo (RJ), organizada por pesquisadores brasileiros que hoje atuam no exterior e foi publicada na revista IMA Fungus. A expedição foi liderada por Dr. Alex Antonelli, diretor científico do Royal Botanic Gardens, Kew, no Reino Unido, e teve a participação de Dr. João Araújo, da Universidade de Copenhague, especialista em Cordyceps reconhecido globalmente.
Foi João Araújo quem percebeu, ainda em campo, que aquele filamento discreto indicava algo fora do comum. “Em qualquer atividade de campo, muitas vezes você pode encontrar uma nova espécie para a ciência”, comenta Elisandro. “A Mata Atlântica, apesar de toda a sua história de estudo, ainda guarda uma biodiversidade única, exclusiva, endêmica e, muitas vezes, desconhecida.”
O maior diferencial do estudo foi o uso de uma abordagem inovadora chamada taxogenômica, que combina taxonomia tradicional com sequenciamento genético de última geração feito diretamente no campo, por meio da tecnologia Oxford Nanopore: “eles levaram um equipamento para sequenciamento de genomas de última geração para o campo. Em uma semana, conseguimos saber se estávamos à frente de uma novidade científica. Essa ferramenta não substitui as análises morfológicas, de biologia molecular clássicas e os dados ecológicos, mas acelera muito o descobrimento da biodiversidade, algo altamente requerido no Brasil.”
Após a etapa de campo, o MIND.Funga teve papel fundamental na continuidade da pesquisa. O grupo colaborou com análises morfológicas, revisão da literatura científica e passou a ser o fiel depositário do espécime-tipo da nova espécie em sua coleção científica. Ou seja, o material tipo, utilizado para descrever a espécie, encontra-se depositado na coleção de fungário/herbário FLOR, da UFSC.
Além do avanço científico, Elisandro destaca o impacto político e estrutural desse tipo de abordagem. “Esse método diminui o colonialismo científico em regiões megadiversas e exige formação de taxonomistas locais para descobrir sua própria biodiversidade.”

Equipe MIND.Funga da UFSC em campo na Serra Catarinense. Foto: Elisandro Drechsler-Santos
Muito além de um fungo ‘zumbificador’
Apesar da descoberta inovadora, o pesquisador reforça que ainda se sabe pouco sobre o ciclo de vida completo da nova espécie. Casos semelhantes já vêm sendo observados em outros biomas brasileiros. Na Amazônia, por exemplo, foi registrada recentemente uma tarântula enterrada infectada por um fungo semelhante. Na Serra Catarinense, há indícios de que aranhas gigantes parasitadas por Cordyceps possam representar espécies novas, ainda em processo de descoberta, e o espécime encontrado na amazônia irá ser útil no processo de comparação e tomada de decisões
Esses achados reforçam uma mudança importante na forma de olhar para os fungos: “são necessários estudos de longo prazo. É difícil entender com clareza como ocorrem a infecção e o ciclo de vida sem esse tipo de avaliação. Hoje vemos que muitos fungos fazem parte de complexos de espécies, escondidos, mas altamente específicos de cada bioma e fitofisionomia.”

Cordyceps caloceroides, parasitando uma tarântula na Amazônia. O registro chamou atenção e viralizou nas redes sociais após ser compartilhado por Elisandro. Foto: Elisandro Drechsler-Santos
Funga, clima e conservação
A descoberta de Purpureocillium atlanticum ocorre em um momento estratégico para a ciência sobre a Funga brasileira. Em 2026, será publicada a primeira Lista Vermelha Nacional da Funga, um marco histórico para a conservação do grupo, vitória que o MIND.Funga ajudou a construir com vários atores nacionais e internacionais, com destaque para o IUCN SSC Brazil Fungal Specialist Group, grupo de especialistas da Comissão de Sobrevivência de Espécies da IUCN, que Elisandro é Chair.
“A partir do momento em que uma espécie entra na lista vermelha do MMA, o governo passa a ter responsabilidade por ações concretas. Os fungos regulam o clima do planeta, contribuem para a retirada de carbono da atmosfera e têm enorme potencial biotecnológico. Eles precisam estar na agenda conservacionista da biodiversidade brasileira”, comenta Elisandro.
Ainda não se sabe se a nova espécie é endêmica ou ameaçada, mas uma coisa é certa: ela escancara o quanto ainda desconhecemos sobre a biodiversidade que sustenta a Mata Atlântica. “A biodiversidade é uma riqueza incrível, parte da soberania do país, não só para ser explorada, mas para ser conhecida, protegida e valorizada”, finaliza Elisandro.
Purpureocillium atlanticum
É um fungo que parasita aranhas-alçapão que vivem em tocas subterrâneas. Após matar seu hospedeiro, o fungo produz uma estrutura reprodutora que emerge pela abertura da toca para liberar esporos na superfície.
A espécie foi coletada em novembro de 2022 e identificada por meio de uma abordagem integrativa, incluindo taxonômica de ponta, combinando taxonomia tradicional com tecnologia portátil de sequenciamento de DNA (Oxford Nanopore), permitindo que os pesquisadores decodificassem o genoma do fungo diretamente em campo.
A descoberta destaca a diversidade da Funga oculta da Mata Atlântica e ressalta a importância de acelerar a pesquisa acerca da biodiversidade em países megadiversos como o Brasil. A maioria das espécies de fungos permanece sem descrição, apesar do seu papel crucial na regulação dos ecossistemas, no equilíbrio do clima e nas estratégias de conservação.
Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Carolina Schäffer e Elisandro Drechsler-Santos
Foto de capa: © Araújo et al. (2025), IMA Fungus.