Rede Mulheres Ecológicas Serramar de Santa Catarina realiza primeiro encontro
Entre os dias 20 e 22 de março de 2026, aconteceu o primeiro encontro da Rede de Mulheres Ecológicas Serramar de Santa Catarina, no município de Rancho Queimado. O evento reuniu mulheres de diferentes regiões do território em um momento de conexão, fortalecimento e construção coletiva.
Em um mundo ainda marcado por estruturas machistas, criar espaços de encontro entre mulheres é um ato político e transformador, que fortalece suas vozes e amplia sua atuação nos territórios. Essa realidade se conecta à economia do cuidado, já que mulheres realizam mais de 75% do trabalho de cuidado não remunerado no mundo e, no Brasil, dedicam muito mais tempo a essas atividades do que os homens.
Esse padrão também se repete no cuidado com o planeta: são majoritariamente mulheres que atuam na preservação da natureza, na produção de alimentos e na sustentabilidade das comunidades, especialmente em contextos rurais e tradicionais. Apesar de essencial, esse trabalho permanece invisibilizado. Assim, ao se organizarem em rede, as mulheres transformam a sobrecarga do cuidado em força coletiva, reconhecimento e ação política.
A Casa do Palhaço, localizada em Rancho Queimado, acolheu o encontro em um cenário entre o litoral e a serra, no início da Serra Catarinense, a cerca de 65 km de Florianópolis. Foi nesse ambiente que a rede ganhou ainda mais força, reunindo trajetórias diversas em torno de um propósito comum.
A Rede de Mulheres Ecológicas Serramar nasce da iniciativa de Mariza Vandresen, Flora Neves e Lótus Reuben, que idealizaram um programa para conhecer, valorizar e dar visibilidade às histórias de mulheres que atuam pela ecologia em seus territórios. Hoje, a rede já conta com cerca de 90 integrantes espalhados pela região.
O encontro surgiu do desejo de estar juntas, fortalecer vínculos e ampliar a potência dessa articulação. Mais do que uma reunião, foi um momento profundo de reconexão com saberes ancestrais e com a missão compartilhada de cuidar da vida em todas as suas formas, nas comunidades, nas famílias, nos territórios e nos projetos individuais e coletivos.
Mulheres das cidades, das áreas rurais, das florestas, das águas e dos mares se deslocaram para participar, reafirmando a importância de uma rede que reconhece e integra diferentes realidades e experiências.
Durante dois dias, o encontro foi marcado por intensas trocas e vivências: rodas de conversa, práticas coletivas, danças circulares, rituais, momentos de escuta e de convivência. Também houve espaço para a expressão artística, com apresentações de trabalhos, poemas, teatro e palhaçaria, revelando a diversidade de talentos na rede.
O ambiente foi de acolhimento e construção de confiança, no qual cada participante pôde compartilhar sua trajetória e fortalecer laços. Em meio às reflexões, destacou-se a importância de equilibrar luta e cuidado: plantar as sementes de um futuro mais justo e sustentável exige não apenas mobilização, mas também afeto, escuta e presença.

Integrantes da Rede; roda de apresentação das integrantes; apresentações artistícas, como por exemplo, com a personagem Recicleide; Thamara Almeida (Apremavi) e Kerexu Yxapyry
(Liderança Indígena do povo Mbya Guarani de Santa Catarina); anotações das ações encaminhadas. Fotos: Thamara Santos de Almeida, Lorena Lucas e Juliana Prates Mota/Cresol.
Como encaminhamento dos debates, as participantes deram um passo significativo na organização da rede. Foi definida a importância de politizar seus espaços de atuação por meio da Rede de Mulheres Ecológicas Serramar, fortalecer os encontros e os processos formativos internos, além de iniciar a construção de um banco de dados com informações das integrantes.
O primeiro encontro marca, assim, o início de uma nova etapa: mais estruturada, conectada e potente, reafirmando o compromisso coletivo com a defesa de todas as formas de vida, começando pelo fortalecimento interno da potência de cada mulher presente.
“Foi uma alegria participar desse encontro, que foi profundamente transformador e emocionante para mim. Estar entre tantas mulheres, diversas em tantos sentidos, mas que, assim como eu, dedicam suas vidas à ecologia nas suas comunidades, me trouxe um sentimento de pertencimento e força coletiva muito grande. Muitas vezes, esse trabalho é solitário e invisibilizado, mas aqui pude perceber que não estamos sozinhas, somos muitas, diversas e potentes”, comenta Thamara Santos de Almeida, que esteve presente no evento representando a Apremavi.
Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Carolina Schäffer
Foto de capa: Ema Vandresen