Conferência de Santa Marta expõe desafios e acelera articulação pelo fim dos combustíveis fósseis
A 1ª Conferência Internacional para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada no final de abril de 2026 em Santa Marta, na Colômbia, reuniu cerca de 60 países em torno de um objetivo comum: acelerar o abandono de petróleo, carvão e gás.
Mesmo sem produzir um acordo juridicamente vinculante, o encontro consolidou uma alternativa política relevante ao modelo tradicional das negociações climáticas da UNFCCC. Em vez de buscar consenso universal, a conferência apostou na formação de uma coalizão de países dispostos a avançar de forma mais rápida e coordenada na transição energética.
Um novo espaço político para a transição
Segundo o Observatório do Clima, Santa Marta foi considerada histórica por três razões principais. A primeira foi a abertura de um espaço diplomático onde os combustíveis fósseis, frequentemente evitados nas negociações internacionais, puderam ser discutidos diretamente como causa central da crise climática.
A segunda foi a mudança de foco: deixou-se de debater “se” a transição é necessária e passou-se a discutir “como” implementá-la. Por fim, a conferência reposicionou a ciência no centro das decisões políticas ao anunciar a criação do painel científico SPAGET (sigla em inglês para o painel de aconselhamento da transição energética), que terá sede na Universidade de São Paulo. O objetivo é orientar políticas públicas com base em evidências, fortalecendo a credibilidade das estratégias nacionais
“Foi um evento histórico. A conferência consolidou uma coalizão de países dispostos a se mover para realizar a transição energética prometida em 2023 e jamais implementada. Não se trata mais de ‘se’ vamos fazer, mas de ‘como’ isso será feito. O encontro atribuiu tarefas concretas aos países, que já saem com a perspectiva de uma nova conferência no próximo ano, sob presidência da Holanda, voltada à construção dos mapas nacionais de transição”, relata Claudio Angelo em vídeo publicado pelo Observatório do Clima.
O papel do Brasil e a controvérsia do plano energético
O Brasil chegou à conferência com protagonismo, sendo apontado como um dos incentivadores da criação dos chamados “mapas do caminho” nacionais para a transição energética. No entanto, esse protagonismo foi abalado nas horas finais do encontro.
O Ministério de Minas e Energia divulgou uma proposta de Plano Nacional de Transição Energética que prevê a permanência de petróleo, gás e carvão na matriz brasileira até 2055. A iniciativa foi criticada pelo Observatório do Clima, que não reconheceu o documento como um plano legítimo de transição.
Segundo Cláudio Angelo do Observatório do Clima, o anúncio constrangeu o país no cenário internacional, especialmente por ocorrer enquanto outras nações discutiam caminhos concretos para abandonar os combustíveis fósseis. Ele também criticou o ministro Alexandre Silveira por decisões anteriores consideradas contraditórias com a agenda climática.
O episódio expôs tensões internas no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, evidenciando a dificuldade de alinhar políticas energéticas com compromissos climáticos internacionais.
O legado de Santa Marta
O principal desafio agora é transformar o impulso político da conferência em ações concretas. A elaboração de “mapas do caminho” nacionais, que deverão ser incorporados às NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), será um teste decisivo para a coalizão formada em Santa Marta.
A conferência inaugurou um novo arranjo de governança climática, baseado na ação coordenada de países dispostos a avançar além do mínimo consenso global. Se esse modelo será capaz de acelerar de fato a transição energética, dependerá da capacidade desses países de implementar mudanças estruturais em suas economias.
Podcast Entrando no Clima
O episódio especial do podcast Entrando no Clima do ((o))eco traz uma leitura da Conferência diretamente de Santa Marta. Apresentado por Marcio Isensee e Sá, o programa reúne a jornalista Karina Pinheiro e o geógrafo e criador de conteúdo Bruno Araújo para discutir os bastidores do encontro.
Autora: Thamara Santos de Almeida com informações do Observatório do Clima
Revisão: Miriam Prochnow e Carolina Schäffer
Foto de capa: Presidência da Colômbia/Domínio Público