Livro aborda adaptação climática com perspectiva interseccional

2 mar, 2026

A nova publicação “Caminhos para um olhar inclusivo sobre adaptação climática”, elaborada pelo Grupo de Trabalho de Gênero e Justiça Climática do Observatório do Clima (OC), articula bases científicas com saberes sociais e ancestrais para avaliar se planos, programas e ações de adaptação incorporam a perspectiva da interseccional e decolonial.

A obra é fruto de um esforço coletivo que reuniu especialistas, profissionais, ativistas e convidados. Gênero, raça e classe social influenciam diretamente quem sofre mais com enchentes, secas, deslizamentos e ondas de calor e quem tem menos acesso a políticas públicas eficazes. Não é possível falar em adaptação climática sem enfrentar as estruturas de poder que moldam as desigualdades históricas. 

Interseccionalidade como eixo central

Na primeira seção, os autores discutem a relação entre desigualdade e mudanças do clima, destacando como raça, território e justiça social se entrelaçam na experiência concreta dos eventos extremos. Relatos de pessoas que já vivenciam os impactos da ausência de políticas eficazes dão o tom de urgência à publicação.

A segunda parte amplia o debate ao incorporar perspectivas antiespecista, anticapacitista, trans, indígena, quilombola, da infância, da juventude e da população idosa. O objetivo é demonstrar como diferentes sistemas de opressão se sobrepõem e produzem vulnerabilidades específicas, conceito fundamental da interseccionalidade. O livro também reforça o “lugar de fala” como ferramenta política e epistemológica, defendendo que populações diretamente afetadas devem ser protagonistas na formulação de soluções.

Já a terceira parte apresenta exemplos concretos de desafios e caminhos possíveis para uma adaptação com justiça climática em diferentes contextos: cidades, campo e setor de energia. A proposta é conectar a diversidade de experiências a estratégias integradoras que promovam não apenas resiliência climática, mas também transição justa para uma sociedade de baixo carbono.

As propostas para uma adaptação com justiça climática defendem a participação plural e equânime de mulheres, povos indígenas e comunidades tradicionais e periféricas na tomada de decisões, a integração entre saberes tradicionais e científicos em processos de formação. Além disso, também defendem a implementação de políticas públicas que enfrentem racismo e misoginia, a criação de salvaguardas de gênero e para grupos vulnerabilizados em projetos de energia e agricultura, a ampliação do acesso a financiamento para iniciativas comunitárias, além da garantia de transparência nos dados climáticos e da adequação da linguagem em debates e negociações, assegurando compreensão e participação efetiva de todos os grupos envolvidos.

Restauração ambiental e reconstrução social

Um dos ensaios que compõem a obra, “Restaurando ambientes e confortando pessoas”, é assinado por Miriam Prochnow, cofundadora e diretora da Apremavi. O texto relata a experiência de restauração ecológica após as enxurradas que atingiram municípios do Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina, em dezembro de 2020.

A artesã Carmen Passero, moradora de Rio do Sul, descreve o momento como “assustador”. Em sua propriedade, foram plantadas 900 mudas de árvores nativas após o evento. No total, 13.685 mudas foram plantadas em 35 propriedades, em uma ação conjunta entre comunidades locais, a Apremavi e prefeituras.

Para além da restauração ecológica, a iniciativa teve papel social decisivo. Técnicas da organização relatam que o trabalho envolveu escuta, apoio emocional e incentivo à reconstrução coletiva. A recuperação das Áreas de Preservação Permanente (APPs) fortaleceu vínculos comunitários e evidenciou que restaurar ecossistemas também é restaurar dignidade e esperança.

> Confira a publicação

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Carolina Schäffer
Foto de capa: Carolina Schäffer

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