Clima e cuidado: não haverá saída sem justiça, coragem e compromisso com a vida
Por Miriam Prochnow
Escrevo a partir de uma história de luta e de uma experiência acumulada ao longo de décadas na defesa da Mata Atlântica. Não falo da crise climática como quem observa um problema à distância. Falo de dentro dela. Falo de uma região que convive com enchentes, secas, vendavais, ciclones e com uma sensação cada vez mais concreta de insegurança. Falo também de um país que, apesar dos avanços duramente conquistados para proteger seus bens comuns e seu povo, tem permitido sucessivos retrocessos ambientais e sociais. E falo, sobretudo, da urgência de recolocar o cuidado no centro da política.
Quando ajudamos a fundar a Apremavi, em 1987, no Alto Vale do Itajaí, a devastação da Mata Atlântica era escancarada. Caminhões carregados de madeira cruzavam nosso cotidiano como se a destruição fosse parte natural da paisagem. Não era. Nunca foi. A indignação diante daquela violência foi o que nos moveu. E, desde o início, ficou claro que não bastava assistir, lamentar ou fazer discursos genéricos. Era preciso denunciar e agir. Era preciso enfrentar interesses poderosos e, ao mesmo tempo, construir alternativas concretas. Foi dessa convicção que nasceu uma prática que me acompanha até hoje: boca no trombone, mão na massa.
Ao longo desses anos, participamos de conquistas importantes, entre elas a Lei da Mata Atlântica, fruto de uma mobilização longa, persistente e coletiva. Mas seria ilusório imaginar que os direitos conquistados estão garantidos para sempre. O que temos visto é um ataque permanente à legislação ambiental, às unidades de conservação, aos mecanismos de controle e ao próprio sentido do interesse público e da democracia. Os retrocessos dos últimos anos não caíram do céu. Eles foram produzidos politicamente. Foram estimulados por governos, por setores econômicos predatórios e por uma cultura que trata a natureza como um obstáculo ao lucro. Quando o Estado enfraquece a proteção ambiental, não está apenas alterando normas. Está autorizando a destruição.
É preciso dizer isso com todas as letras: a crise climática não é uma fatalidade natural. Ela é agravada por escolhas. Ela se intensifica quando se permite o desmatamento, quando se desmonta o licenciamento, quando se ocupam de forma irresponsável áreas frágeis, quando se despreza o planejamento urbano, quando se ignora a ciência e quando se governa para poucos. A tragédia não começa no dia da enchente, do vendaval ou do deslizamento. Ela começa antes, nas decisões tomadas, ou deliberadamente não tomadas, por quem tem poder de proteger e prefere servir a interesses próprios ou está a serviço dos interesses de quem destrói.
Santa Catarina conhece bem essa realidade. Os eventos extremos se tornaram mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis. O medo passou a fazer parte do cotidiano. Estamos com a ameaça de um super El Niño batendo à porta. Mas nem todos enfrentam esse medo da mesma maneira. A crise climática escancara desigualdades antigas e cria novas formas de injustiça. Quem mais sofre são sempre os mesmos: mulheres, crianças, idosos, migrantes, populações pobres, pessoas que vivem em áreas de risco e que, em geral, recebem menos proteção, menos escuta e menos direito de participar das decisões. Quando uma família é retirada de uma área sujeita a enchente e levada para outra igualmente vulnerável, o poder público não está resolvendo um problema. Está apenas deslocando o dano, empurrando vidas para a linha de frente do desastre.
Por isso, insisto, que a discussão climática seja tratada como uma questão de justiça. Não se trata apenas de adaptação técnica, de obras emergenciais ou de sistemas de alerta, embora tudo isso seja necessário. Trata-se de questionar a lógica perversa da ação baseada na separação entre quem vive com segurança e quem é condenado à exposição permanente, ou ainda entre quais vidas são consideradas prioritárias e quais são descartáveis. Isso nos obriga a reconhecer que a política ambiental e a política social não podem seguir separadas. Onde faltam moradia digna, planejamento, saneamento, saúde, participação popular e proteção territorial, a crise climática encontra terreno fértil para aprofundar a desigualdade.
Também não haverá justiça climática sem enfrentar a desigualdade de gênero. As mulheres continuam sustentando a vida concreta, cotidiana, invisibilizada. Trabalham fora, trabalham dentro de casa, cuidam dos filhos, dos idosos, da alimentação, da saúde, da organização doméstica e, em muitos casos, ainda seguem sem reconhecimento e sem apoio efetivo. Em contextos de crise, essa sobrecarga aumenta. São as mulheres que frequentemente reorganizam a sobrevivência da família, amparam os atingidos, administram a escassez e tentam manter algum vínculo social em meio ao caos. Ainda assim, as políticas públicas de adaptação climática seguem sendo pensadas, em grande parte, sem um olhar real para o cuidado e para a desigualdade de gênero. Isso é mais do que omissão. É um erro estrutural.
Quando falo em cuidado, não estou falando de um apelo sentimental ou de uma virtude privada. Estou falando de uma categoria política. Cuidado é aquilo que garante as condições materiais, sociais e ecológicas para que a vida continue. Cuidar é proteger florestas, nascentes, rios e solos. Cuidar é planejar cidades para que não matem seus moradores. Cuidar é ouvir as comunidades antes de impor soluções de gabinete. Cuidar é valorizar os saberes locais sem romantizá-los, integrando experiência, ciência e participação social. Cuidar é reconhecer que ninguém enfrentará a crise climática sozinho. E cuidar, em última instância, é romper com uma lógica de exploração que trata tudo, a natureza, o trabalho, os corpos e os territórios, como coisa disponível para saque.
A ausência de cuidado é visível por toda parte. Ela está na devastação ambiental, mas também no crescimento da violência, no aumento do número de feminicídios, na exploração de trabalhadores, no racismo estrutural, na xenofobia, nos maus-tratos contra animais e no desprezo pelos mais vulneráveis. Não vejo esses fenômenos como temas desconectados. Vejo como expressões de uma mesma sociedade adoecida, autoritária e desigual, que banaliza a violência e naturaliza a destruição. Uma sociedade que destrói florestas com facilidade é também uma sociedade que aprende a conviver com a brutalização da vida.
Mesmo assim, seguir lutando continua sendo necessário. E, para mim, essa permanência não se sustenta apenas pela denúncia. Sustenta-se também por uma agenda positiva, concreta e transformadora. Sustenta-se no viveiro de mudas, na restauração das nascentes, no relato de quem viu a água voltar, no diálogo entre diferentes atores, na construção paciente de caminhos coletivos. A restauração ambiental, nesse sentido, não é uma pauta menor, nem conciliatória. Ela é profundamente política. Restaurar é planejar o território, debater valores, discutir futuro. É afirmar que o país não precisa escolher entre vida e desenvolvimento, mas sim entre modelos predatórios e modelos comprometidos com o bem comum.
Já passou da hora de tratar a crise climática com a gravidade que ela exige. Não precisamos de mais discursos vazios, promessas genéricas ou ações simbólicas. Precisamos de coragem política para enfrentar interesses econômicos que lucram com a destruição. Precisamos de políticas públicas sérias, participativas e territorializadas. Precisamos fortalecer a legislação ambiental, restaurar ecossistemas, proteger os mais vulneráveis e colocar a vida acima da ganância. Isso vale para os governos, mas também vale para a sociedade. Porque não existe neutralidade possível diante do colapso.
Depois de tantos anos de militância, o que penso é simples: a humanidade só terá alguma chance de atravessar esta crise se reaprender a cuidar. Mas esse cuidado, para ser verdadeiro, precisa vir acompanhado de justiça, coragem e enfrentamento político. Não haverá saída baseada apenas em tecnologia, mercado ou adaptação superficial. A saída, se vier, terá de ser construída com compromisso radical com a vida humana e não humana e com disposição para romper com tudo aquilo que transformou a destruição em norma. O Planeta Terra, de alguma forma, vai sobreviver. Já a sobrevivência da humanidade vai depender do tamanho do cuidado que vamos conseguir implementar.
Revisão e foto de capa: Carolina Schäffer.