Açoita-cavalo: uma espécie brasileira para restaurar e enriquecer florestas

15 jun, 2026

O nome científico Luehea divaricata homenageia o botânico austríaco Karl von der Lühe. Já o epíteto específico divaricata faz referência ao aspecto aberto e ramificado dos pedúnculos e pedicelos da inflorescência.

Popularmente conhecida como açoita-cavalo, a espécie recebeu esse nome devido à flexibilidade de seus galhos, que antigamente eram utilizados como chicotes para conduzir animais. Entre os povos indígenas de língua tupi-guarani, é chamada de ivatingi, expressão que pode ser traduzida como “fruto-que-aborrece”.

Distribuição geográfica

Açoita-cavalo possui ampla distribuição geográfica, ocorrendo em diferentes biomas. Na Mata Atlântica é especialmente frequente na Floresta Ombrófila Mista, onde pode alcançar densidades de até 46 indivíduos por hectare em áreas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Também está presente nas Florestas Estacionais Semideciduais e Deciduais.

Por sua capacidade de se estabelecer em vegetação secundária, capoeiras e áreas em regeneração, o açoita-cavalo é considerado uma espécie importante na dinâmica sucessional das florestas. Classificada como secundária inicial ou secundária tardia, ou ainda como uma espécie clímax exigente de luz, contribui para a estruturação e o enriquecimento das áreas em processo de recuperação.

Flores que atraem polinizadores e associação com fungos

Entre os meses de verão e de outono, o açoita-cavalo produz flores que servem de alimento para diversos polinizadores. Os principais visitantes são as abelhas, especialmente a Apis mellifera, mas os beija-flores também podem atuar ocasionalmente na polinização.

As flores possuem valor apícola, fornecendo néctar e pólen para a produção de mel. Tradicionalmente, o mel obtido da espécie é associado a propriedades expectorantes.

Após a floração, os frutos amadurecem entre maio e julho na Região Sul. Suas sementes são dispersas pelo vento, um mecanismo conhecido como anemocoria, que favorece a colonização de novas áreas.

A espécie tem uma associação particular com fungos benéficos do solo, uma vez que ela forma relações simbióticas com fungos ectomicorrízicos e micorrízicos arbusculares, que auxiliam na absorção de água e nutrientes. Essas associações aumentam o desenvolvimento das mudas e favorecem seu estabelecimento em áreas em recuperação, reforçando sua importância em projetos de restauração ecológica.

Coleta de sementes para produção de mudas

De acordo com o Guia de Coleta de Sementes Nativas da Mata Atlântica da Apremavi, a coleta de sementes de açoita-cavalo ocorre principalmente entre junho e agosto. Os frutos devem ser colhidos quando a coloração passa de verde para o marrom-claro, antes da abertura completa.

Após a coleta, recomenda-se a secagem inicial à sombra e, posteriormente, exposição gradual ao sol para completar a abertura dos frutos e facilitar a liberação das sementes. As sementes são classificadas como recalcitrantes, o que significa que têm baixa tolerância ao armazenamento prolongado e exigem cuidados especiais para manter a viabilidade. Um quilograma contém aproximadamente 263 mil sementes.

Importância para a restauração ecológica

Seu uso é indicado para recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs), margens de rios, encostas íngremes, áreas sujeitas a encharcamento e locais degradados por processos erosivos.

A espécie apresenta boa capacidade de regeneração por brotação e tolera inundações periódicas de curta duração, características que ampliam seu potencial para restauração de ambientes ripários. Por outro lado, especialistas recomendam evitar plantios puros a pleno sol, pois a espécie tende a apresentar esgalhamento precoce nessas condições. O ideal é utilizá-la em plantios mistos, associada a espécies pioneiras ou em sistemas de enriquecimento.

Também é uma excelente opção para Sistemas Agroflorestais (SAFs) e sistemas silvipastoris, fornecendo sombra ao gado e contribuindo para o conforto térmico dos animais.

Flor de açoita-cavalo

Aspectos da flor, folha, fruto, árvore e tronco da espécie açoita-cavalo (Luehea divaricata). Fotos: (BY-NC-SA 4.0) João Paulo de Maçaneiro, Martin Molz e Denise Tedesco via Flora Digital do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Açoita-cavalo

Nome científico: Luehea divaricata Mart. & Zucc
Família: Malvaceae
Fruto: cápsula marrom, revestida de pelos ferrugíneos, com cerca de 2 a 3 cm de comprimento
Flor: pétalas róseas, roxas ou raramente brancas, chegando a medir 2,5 cm de comprimento
Coleta de sementes: os frutos devem ser colhidos quando começam a ficar marrons, secos à sombra e depois expostos gradualmente ao sol para liberar as sementes, podendo ser agitados para facilitar o processo
Germinação: tem início de 8 a 74 dias após a semeadura, o poder germinativo é variável e irregular, entre 20% e 85%
Plantio: espécie recomendada para restauração ecológica de APPs, margens de rios e áreas degradadas, preferencialmente em plantios mistos e sistemas agroflorestais
Status de conservação: Não listada – Portaria MMA 148/2022 e IUCN.

 

Referências consultadas

CARVALHO, Paulo Ernani Ramalho. Açoita-cavalo: Copaifera trapezifolia. In: CARVALHO, P. E. R. (Org.). Espécies arbóreas brasileiras. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica; Colombo: Embrapa Florestas. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/309467/1/circtec147.pdf. Acesso em: 15 jun. 2026.

GERACE, S.; BOVINI, M. G. Luehea. Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB9094. Acesso em: 15 jun. 2026.

GIEHL, E. L. H. (coord.). Luehea divaricata Mart. & Zucc.. Flora Digital do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em: https://floradigital.ufsc.br/open_sp.php?img=5146. Acesso em: 15 jun. 2026.

SCHÄFFER, C.; DICK, E.; POZZAN, M.; ZANELATTO, V. L. (org.). Guia de coleta de sementes nativas da Mata Atlântica. 1. ed. Atalanta: Apremavi, 2024. Disponível em: https://apremavi.org.br/wp-content/uploads/2024/09/guia-de-coleta-de-sementes-da-mata-atlantica.pdf. Acesso em: 15 jun. 2026. 

 

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Carolina Schäffer
Foto de capa: João de Deus Medeiros, CC BY 2.0 via Wikimedia Commons

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