Araucárias centenárias: as matrizes da conservação da biodiversidade da Mata Atlântica

24 jun, 2026

Hoje, 24 de junho, é o Dia Nacional da Araucária, data em que celebramos a resistência dessa árvore simbólica da Mata Atlântica, que atravessou milhões de anos de evolução, mas que atualmente está ameaçada de extinção.

As araucárias são consideradas “dinossauros vivos” porque evoluíram e sobreviveram no hemisfério sul desde a época dos dinossauros, há cerca de 250 milhões de anos. As duas espécies de araucária que existem hoje na América do Sul estão aqui desde o afastamento entre os continentes da África e da América do Sul, há 65 milhões de anos: a Araucaria araucana, em regiões do Chile e da Argentina; e a Araucaria angustifolia, com distribuição pelo Brasil, Argentina e Paraguai. Além dessas, existem outras espécies do gênero Araucária na Austrália, na Papua-Nova Guiné, na Nova Zelândia e no arquipélago de Nova Caledônia no Oceano Pacífico.

Mas na história recente, em pouco mais de um século, o intenso processo de devastação decorrente da intervenção humana, principalmente para exploração de sua madeira nobre, levou as araucárias à beira da extinção. Aqui no Brasil, apenas algumas dezenas de araucárias centenárias resistiram, principalmente  por conta de “defeitos”, como troncos ocos, bifurcações e rachaduras, que as salvaram do fatídico e trágico fim em alguma serraria.

Há pouco mais de duas décadas, após muita luta e mobilização, o corte e a derrubada foram proibidos de forma definitiva por decisões judiciais e pela conquista de legislações de proteção, como Resoluções do Conama e a Lei da Mata Atlântica (Lei nº 11.428/2006). E o processo de regeneração e restauração dessa formação florestal, quase perdida, ganhou força.

Araucaria gigante em Urupema

“Paro diante dela e me sinto pequena. Sua copa toca o céu, seu tronco guarda marcas de séculos, e suas raízes permanecem firmes onde tantas outras árvores já não existem. Esta araucária gigante é mais do que uma árvore. É uma testemunha viva de um tempo em que a floresta dominava a paisagem, quando a Mata Atlântica do Sul era um contínuo de vida, diversidade e abundância. Enquanto a observo, penso em tudo o que ela viu. Viu nascer e morrer gerações. Viu a chegada dos colonizadores, a abertura das estradas, o som dos machados e das motosserras. Viu a floresta encolher ao seu redor. Sobreviveu quando milhões de outras árvores tombaram. Há algo profundamente comovente em estar diante de um ser vivo que atravessou tantos acontecimentos e ainda permanece de pé. Ela nos lembra de que fazemos parte de uma história muito maior do que a nossa própria existência. Uma história escrita lentamente pela natureza, mas que pode ser destruída em poucos minutos pela ação humana. Ao mesmo tempo, sua presença é um ato de resistência. Cada grande araucária que sobrevive é uma memória viva do que fomos e um convite para refletirmos sobre o que queremos ser. Ela nos mostra que ainda há tempo para proteger o que resta, restaurar o que foi destruído e reconstruir nossa relação com a floresta. Diante dela, não sinto apenas admiração. Sinto responsabilidade. Porque quando uma araucária centenária desaparecer, não perderemos apenas uma árvore. Perderemos uma parte da nossa história, da nossa identidade e da memória da própria floresta”, relata a Coordenadora de Políticas Públicas da Apremavi, Miriam Prochnow, sobre o encontro com uma araucária centenária que resiste em Urupema (SC).

 

Araucaria gigante em Urupema

As maiores araucárias centenárias já mapeadas possuem troncos com mais de 1,5 metros de diâmetro. Esta é a terceira maior araucária centenária, conforme estudo realizado pelo professor do Departamento de Engenharia Florestal da UFSC Curitibanos, Marcelo Scipioni. Foto: Wigold Schäffer

Em Santa Catarina, a Floresta com Araucárias recobria 42,5% do território do estado, totalizando 40.807 km², e a Araucária angustifolia predominava em 40% das árvores. Originalmente, alcançavam até 50 metros de altura e 2 metros de diâmetro. Atualmente, restam apenas cerca de 3% da cobertura original. Além dos estados da região Sul, a área de extensão abrangia também parte de São Paulo e Minas Gerais.

Hoje, as araucárias centenárias que restaram se destacam como gigantes solitárias na paisagem, onde antes eram ladeadas por uma imensidão de outras que compunham a Floresta Ombrófila Mista,ou Floresta com Araucárias, no bioma Mata Atlântica. Mesmo raras, essas gigantes cumprem uma função fundamental como matrizes de geração de sementes detentoras da herança genética necessária para o replantio e a conservação da biodiversidade nas próximas gerações de florestas.

 

Araucárias centenárias na paisagem

Araucárias na paisagem. Foto: Wigold Schäffer

“Os raros pinheiros gigantes centenários são depositários de uma variabilidade genética restrita e com reduzidas condições de voltar a circular pelo acentuado isolamento dos fragmentos. Assim, localizar, proteger e propagar novos indivíduos provenientes dessas árvores gigantes é missão imprescindível para o resgate e conservação da variabilidade genética da espécie que conseguiu sobreviver à sanha devastadora de uma exploração de insustentabilidade indiscutível”, explica o Professor Dr. João de Deus Medeiros, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A araucária pode ser considerada a matriarca desse ecossistema porque sustenta uma série de outras espécies, oferecendo o pinhão como alimento para animais, como a gralha-azul e as cutias, e garantindo as condições para a manutenção do equilíbrio da floresta. Por isso, a luta pela conservação e restauração dessa espécie foi e é tão importante para garantir o futuro e manter a biodiversidade da Mata Atlântica como um todo.

Com a fragmentação de remanescentes primários e a alteração estrutural da floresta, o desafio da restauração é restabelecer a riqueza genética para que as novas gerações de mudas possam virar árvores, produzir sementes e gerar novos indivíduos que consigam, mais uma vez, resistir ao cenário desafiador das mudanças climáticas em curso neste século.

“Reverter esse quadro precisa ser entendido como obrigação moral de uma sociedade civilizada, e especial atenção aos indivíduos de pinheiros gigantes mostra-se como medida de extrema urgência. Em pouco mais de um século colocamos a Araucaria angustifolia numa condição de espécie criticamente ameaçada; cabe a nós assumir de modo consequente o compromisso de resguardar o que sobrou, recompor e conservar a floresta ombrófila mista, e isso não pode ser feito sem a contribuição dos majestosos pinheiros gigantes sobreviventes”, conclui João de Deus.


Conservador das Araucárias

 

A ação de coleta de sementes, produção de mudas e plantio de araucárias faz parte do Conservador das Araucárias,  desenvolvido pela Apremavi  em parceria com a Tetra Pak. O projeto pretende restaurar e conservar 7 mil hectares, sobretudo na região da Floresta com Araucárias. No âmbito do projeto, também está em curso uma parceria com a UFSC, que está estudando as matrizes genéticas de araucárias centenárias e plantando-as em áreas do projeto.

Além de produzir, plantar e conservar araucárias, o Conservador das Araucárias visa à restauração florestal com espécies nativas, atrelada à captura de carbono para mitigação das mudanças climáticas. Além disso, promove a adequação de propriedades rurais à legislação ambiental, a conservação dos mananciais hídricos, do solo e da biodiversidade, bem como a melhoria da qualidade de vida da população.  

> Conheça o projeto Conservador das Araucárias

Autora: Patricia Krieger.
Revisão: Carolina Schäffer e Wigold Schäffer.
Foto de capa: Wigold Schäffer.

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