Funga brasileira ganha primeira lista oficial de espécies ameaçadas
Portaria do MMA reconhece oficialmente 24 espécies da funga ameaçadas de extinção e amplia a proteção da biodiversidade além da fauna e da flora.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) publicou, em 1º de junho, a primeira Lista Nacional Oficial das Espécies da Funga Ameaçadas de Extinção. Instituída pela Portaria GM/MMA nº 1.696, a medida reconhece formalmente 24 espécies de fungos brasileiros em diferentes categorias de ameaça e estabelece a proteção integral para aquelas classificadas como Extintas na Natureza (EW), Criticamente em Perigo (CR), Em Perigo (EN) e Vulnerável (VU).
A publicação representa um marco histórico para a conservação da biodiversidade no país. Embora sejam fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas, os fungos historicamente receberam menos atenção das políticas públicas do que a fauna e a flora. Eles desempenham um papel essencial na decomposição da matéria orgânica, na ciclagem de nutrientes e em associações simbióticas que sustentam o desenvolvimento de inúmeras espécies vegetais.
A portaria prevê que a lista seja atualizada periodicamente, à medida que novos estudos científicos ampliem o conhecimento sobre o estado de conservação das espécies. Os critérios técnicos utilizados nas avaliações serão disponibilizados pelo MMA e pelo Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Um avanço impulsionado pela ciência
A conquista é resultado de uma articulação entre o IUCN SSC Brazil Fungal Specialist Group (BrazFunSG), o CNCFlora, a plataforma Flora e Funga do Brasil e pesquisadores de diversas instituições do país. O avanço também reflete o trabalho de iniciativas como o Projeto Universal Funga do Brasil, apoiado pelo CNPq.
Entre os pesquisadores envolvidos está o micólogo Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador do projeto MIND.Funga (Monitoring and Inventorying Neotropical Diversity of Fungi), vinculado ao Laboratório de Micologia da instituição.
O grupo atua na documentação da diversidade de fungos do país, especialmente das espécies raras, ameaçadas ou ainda pouco conhecidas. “O MIND.Funga atua na documentação da biodiversidade da funga brasileira, com foco especial em espécies ameaçadas e pouco conhecidas. Um marco importante foi o trabalho que resultou na primeira Lista Vermelha Nacional da Funga, recém publicada”, explica.
Elisandro destaca que, atualmente, 123 espécies brasileiras já foram avaliadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) em nível global, mas apenas 24 passam a integrar oficialmente a lista nacional. “A lista nacional é fundamental porque, a partir do momento em que uma espécie entra oficialmente na lista do MMA, o governo passa a ter responsabilidade legal por ações de conservação, com prazos e metas definidos”, afirma.
Fungos ameaçados também ocorrem na Mata Atlântica
Entre as espécies contempladas pela nova lista estão fungos associados aos ecossistemas da Mata Atlântica.
Uma delas é Lactifluus marielleae, classificada como Em Perigo (EN). Trata-se de um fungo ectomicorrízico encontrado em fragmentos urbanos preservados da Mata Atlântica na região Sudeste do Brasil. Até o momento, são conhecidos apenas quatro registros da espécie, todos em áreas acima de 500 metros de altitude. Apesar do elevado esforço amostral em outras regiões do bioma, nenhum outro registro foi encontrado, indicando uma distribuição bastante restrita.
Outra espécie presente na lista é Amanita viscidolutea, considerada Vulnerável (VU). Ela ocorre em áreas arenosas e sombreadas das restingas da Mata Atlântica costeira, sendo encontrada tanto no Nordeste quanto no Sul do país. Existem apenas cinco registros conhecidos, e acredita-se que a espécie mantenha associações ecológicas com plantas dos gêneros Coccoloba e Guapira.
Fauna, Flora e Funga
Nos últimos anos, pesquisadores e organizações internacionais, incluindo Elisandro, têm defendido o reconhecimento da chamada “funga” como um dos três pilares da biodiversidade, ao lado da fauna e da flora. A inclusão dos fungos nas estratégias de conservação é considerada essencial diante das crescentes pressões decorrentes das mudanças climáticas, da perda de habitats, da fragmentação das florestas e da degradação dos ecossistemas.
Ao reconhecer oficialmente as espécies ameaçadas da funga brasileira, o país dá um passo importante para ampliar a conservação da biodiversidade em sua totalidade e reforça o papel da ciência na formulação de políticas públicas voltadas à conservação.
Autora: Thamara Santos de Almeida.
Revisão: Carolina Schäffer e Elisandro Ricardo Drechsler-Santos.
Foto de capa: Gerardo Robledo/Mind Funga UFSC.