El Niño deve se intensificar em 2026: o que é e quais podem ser os impactos?

16 jul, 2026

Nos últimos dias, centros meteorológicos internacionais confirmaram o fortalecimento do fenômeno El Niño no Oceano Pacífico, com previsão de que ele continue se intensificando ao longo de 2026 e permaneça ativo até o início de 2027. 

Segundo um esforço conjunto da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), do Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, há 97% de probabilidade de o fenômeno persistir até a próxima primavera no Hemisfério Norte e 81% de chance de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, podendo figurar entre os eventos mais intensos desde o início dos registros modernos.

Embora o comportamento exato do clima ainda dependa de diversos fatores, a previsão reforça a necessidade de preparação para possíveis alterações nos padrões de chuva, temperatura e ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do planeta.

 

O que é o El Niño?

O El Niño é a fase quente de um ciclo climático natural conhecido como Oscilação Sul–El Niño (ENSO). O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal, alterando a circulação atmosférica e influenciando o clima em diversas partes do mundo.

Esse ciclo alterna entre três fases: El Niño (aquecimento das águas), La Niña (resfriamento) e condições neutras. Cada uma delas modifica a distribuição das chuvas e das temperaturas em escala global. 

 

Quais são os impactos esperados no Brasil?

Os efeitos do El Niño variam conforme a região do país. Historicamente, os principais impactos incluem:

  • Aumento das chuvas no Sul do Brasil, elevando o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos;
  • Redução das chuvas em parte da Amazônia e do Nordeste, favorecendo secas mais prolongadas;
  • Maior irregularidade das precipitações no Centro-Oeste e Sudeste;
  • Temperaturas acima da média e ondas de calor mais frequentes em diversas regiões.

Esses padrões não se repetem exatamente em todos os eventos, mas servem como referência para o planejamento de ações preventivas.

 

Um planeta mais quente aumenta os riscos

Embora o El Niño seja um fenômeno natural, ele ocorre atualmente em um contexto de aquecimento global acelerado. Oceanos mais quentes, atmosfera mais carregada de umidade e eventos extremos mais frequentes tornam seus impactos potencialmente mais severos. Isso significa que chuvas intensas podem provocar inundações maiores, enquanto períodos secos tendem a favorecer incêndios florestais, perdas agrícolas e escassez hídrica em algumas regiões.

Especialistas reforçam que o aquecimento global continua sendo o principal fator responsável pela intensificação dos eventos climáticos extremos observados nas últimas décadas.

 

Santa Catarina precisa investir em prevenção

No Sul do Brasil, especialmente em Santa Catarina, a combinação entre El Niño e vulnerabilidades já existentes aumenta a preocupação com enchentes, enxurradas e movimentos de massa. Os eventos registrados durante o último El Niño, entre 2023 e 2024, evidenciaram os impactos que chuvas extremas podem causar sobre cidades, comunidades e ecossistemas.

Diante da possibilidade de um novo episódio intenso, especialistas destacam que o enfrentamento dos riscos depende não apenas do monitoramento meteorológico, mas também de investimentos contínuos em prevenção, adaptação às mudanças climáticas, restauração de ecossistemas, proteção de áreas naturais e planejamento urbano, o que não vem acontecendo em diversos estados, como Santa Catarina.

Uma reportagem da DW revelou que Santa Catarina tem um histórico de “economia” na hora de investir na prevenção de desastres. Em 2025, o governo gastou metade dos recursos previstos no orçamento, incluindo o que é direcionado às Defesas Civis. Em 2024, a execução foi ainda menor: 44%. De 2024 a 2027, o governo de Santa Catarina previu em seu Plano Plurianual (PPA) investir R$ 2,7 bilhões no programa de gestão de risco. Até agora, foram aplicados de fato R$ 275 milhões, ou seja, 10% do total.

Enchente no Vale do Itajaí

Registro do Rio Dona Luiza na enchente de 2022 , que abastece o Rio Itajaí-Açú. Foto: Miriam Prochnow.

A natureza também faz parte da solução

Florestas, matas ciliares, áreas úmidas, manguezais e outros ecossistemas naturais desempenham um papel fundamental na redução dos impactos dos eventos extremos. Essas áreas ajudam a infiltrar água no solo, diminuem o risco de enchentes, estabilizam encostas, protegem nascentes e contribuem para a regulação do clima.

Por isso, conservar e restaurar a vegetação nativa não é apenas uma estratégia de conservação da biodiversidade, mas também uma medida essencial de mitigação e adaptação às mudanças climáticas e de redução dos riscos de desastres.

Com a previsão de fortalecimento do El Niño nos próximos meses, torna-se ainda mais urgente investir em planejamento, infraestrutura resiliente, sistemas de monitoramento, restauração de ecossistemas e conservação da vegetação nativa. Reduzir os impactos dos eventos extremos depende da combinação entre ciência, políticas públicas efetivas e a proteção dos ecossistemas, que são aliados fundamentais na luta contra a emergência climática.

Autora: Thamara Santos de Almeida.
Revisão: Miriam Prochnow.
Foto de capa: Enchente de 2022 em Rio do Sul (SC). Foto: Wigold Schäffer.

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