Mata Atlântica fragmentada: o desmatamento está tornando as florestas mais parecidas entre si
A Mata Atlântica já cobriu uma vasta faixa do território brasileiro, abrigando uma das maiores diversidades de plantas do planeta. Hoje, porém, restam apenas 12,4% da cobertura florestal original do bioma, composta por fragmentos mais maduros de mais de três hectares.
Um novo estudo publicado na revista Global Change Biology, realizado por pesquisadores brasileiros, mostra que essa fragmentação não reduz apenas a quantidade de floresta: ela também empobrece a variedade de espécies vegetais presentes em diferentes regiões da Mata Atlântica.
A pesquisa analisou 95 paisagens distribuídas ao longo do bioma, com base em dados de 270 inventários florestais. Os cientistas investigaram como o desmatamento e a fragmentação afetam o quanto as comunidades de plantas diferem entre si. Quanto maior a diversidade, maior a variedade de espécies em diferentes áreas da floresta.
Florestas mais homogêneas
Os resultados mostram que, em paisagens muito fragmentadas, as florestas estão se tornando mais parecidas entre si. Esse processo é conhecido como “homogeneização biótica”.
Segundo os autores, o aumento do número de fragmentos florestais favorece espécies generalistas, capazes de sobreviver em ambientes degradados, enquanto espécies raras e especializadas desaparecem gradualmente. O resultado é uma perda silenciosa da singularidade ecológica da Mata Atlântica.
A fragmentação também altera profundamente as condições ambientais. Fragmentos pequenos sofrem maior influência das bordas, ficam mais expostos à entrada de gado, a incêndios e perturbações humanas, além de dificultarem a dispersão de sementes e a circulação de espécies vegetais.
“O problema tende a ser mais grave em regiões altamente fragmentadas da Mata Atlântica, como é o caso das matas mais do interior, como a Floresta Estacional Semidecidual e a Floresta Estacional Decidual, que ocorrem no oeste do Estado de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul”, relata Jean M. Freitag Kramer, pós-doutorando no Laboratório de Ecologia Vegetal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, primeiro autor do estudo.
O efeito nas espécies endêmicas
Outro dado importante do estudo é que áreas com maior quantidade de floresta preservada concentram mais espécies endêmicas, aquelas que ocorrem apenas em determinadas regiões da Mata Atlântica.
Essas espécies possuem alto valor ecológico e evolutivo, mas são particularmente vulneráveis ao desmatamento, pois muitas têm baixa capacidade de dispersão e dependem de condições ambientais muito específicas.
Os pesquisadores observaram que paisagens com maior cobertura vegetal mantêm níveis mais altos de endemismo, reforçando a importância da conservação de grandes áreas contínuas de floresta.
“Normalmente, espécies endêmicas, com distribuição mais restrita, são mais vulneráveis ao desmatamento e à fragmentação, como o palmito-juçara (Euterpe edulis). Em regiões altamente fragmentadas, com o decorrer do tempo, acabam restando apenas as espécies mais toleráveis à fragmentação, que normalmente são espécies com distribuição mais ampla pelo bioma”, comenta Jean.
Pequenos fragmentos também têm valor
Apesar da importância das grandes áreas conservadas, os autores destacam que pequenos fragmentos florestais também desempenham um papel crucial na conservação. Eles podem funcionar como “pontes ecológicas”, facilitando o deslocamento de espécies entre áreas maiores.
Por isso, os pesquisadores defendem estratégias que combinam a conservação de grandes remanescentes com a manutenção de pequenos fragmentos espalhados pela paisagem.
A Mata Atlântica abriga milhares de espécies de plantas, muitas delas exclusivas do Brasil. Entretanto, décadas de desmatamento vêm alterando profundamente a composição dessas comunidades vegetais. O novo estudo mostra que os impactos vão além da simples perda de área florestal: a fragmentação altera a própria identidade ecológica da floresta. Ao tornar diferentes regiões mais semelhantes entre si, o desmatamento reduz a complexidade biológica fruto de milhões de anos de evolução.

Fragmento de Mata Atlântica com palmito-juçara, uma das espécies mais sensíveis ao desmatamento e à fragmentação. Foto: Jean M. Freitag Kramer
Laboratório de Ecologia Vegetal da UFRGS
A pesquisa é fruto do trabalho de doutorado do Jean, realizado no Laboratório de Ecologia Vegetal (LEVEG) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O LEVEG desenvolve pesquisas em ecologia, especialmente nas áreas de ecologia de comunidades e ecologia da restauração. O foco das pesquisas é a dinâmica de comunidades de plantas, com estudos de padrões estruturais e funcionais no tempo e no espaço. O grupo também realiza pesquisas que integram relações planta-animal, avaliando a resposta de diferentes conjuntos de organismos a gradientes ambientais e/ou de distúrbio.
Os trabalhos são desenvolvidos em ecossistemas florestais, campestres e em ecótonos floresta-campo, abrangendo os biomas Mata Atlântica e Pampa.
Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Carolina Schäffer
Foto de capa: Thamara Santos de Almeida