Mata Atlântica tem redução histórica no desmatamento
No ano em que a Lei da Mata Atlântica completa 20 anos, o bioma registra o menor desmatamento da série histórica.
Após duas décadas de vigência da Lei da Mata Atlântica (Lei nº 11.428/2006), o bioma alcançou um marco histórico: o menor índice de desmatamento desde o início do monitoramento sistemático do Atlas da Mata Atlântica, em 1985. Os dados fazem parte da edição 2024-2025 do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, desenvolvido em parceria entre a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
O levantamento apontou que o desmatamento no período totalizou 8.658 hectares, o equivalente à perda de 23,7 hectares de matas maduras por dia. Apesar do impacto ainda significativo, o resultado representa uma redução de 40% em relação ao período anterior e de 60% em relação a 2020-2021, consolidando uma trajetória contínua de queda.
O monitoramento é realizado por meio de imagens de satélite da família Landsat e, desde 2021, também de imagens do Sentinel-2. Os remanescentes identificados pelo Atlas correspondem às chamadas florestas maduras, áreas superiores a três hectares sem sinais de degradação perceptíveis por satélite. Segundo o relatório, a perda registrada no período resultou na emissão estimada de aproximadamente 4,14 milhões de toneladas de CO₂ equivalente na atmosfera, conforme os parâmetros do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Taxa de desmatamento e tendência na série histórica de mapeamento do Atlas. Figura: Atlas da Mata Atlântica período 2024-2025 Fundação SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
Cinco estados concentram 91% das perdas
O desmatamento ficou concentrado em cinco estados, responsáveis por 91% de toda a devastação registrada desde 1985:
- Minas Gerais – 3.092 hectares;
- Bahia – 2.889 hectares;
- Mato Grosso do Sul – 841 hectares;
- Piauí – 659 hectares;
- Paraná – 411 hectares.
Mesmo entre os maiores desmatadores históricos, houve uma redução expressiva das taxas. A Bahia apresentou queda de 39%, enquanto o Piauí reduziu o desmatamento em 78%. Na contramão dos demais estados, em 2025, Santa Catarina registrou um aumento de 16% no desmatamento, provocado pela expansão imobiliária e pelas atividades agropecuárias. Junto com Santa Catarina, Pernambuco, Paraná e Minas Gerais também registraram aumento em relação ao período de 2023-2024. Nos outros 13 estados monitorados houve diminuição. Outro dado relevante aponta que 70% das perdas ocorreram em terras privadas, enquanto apenas 1% foi registrado em áreas protegidas.
Operações de controle impulsionam redução
Especialistas atribuem a queda histórica a medidas concretas de fiscalização e controle ambiental, entre elas a Operação Mata Atlântica em Pé, a aplicação de embargos remotos e a restrição de crédito a propriedades com desmatamento ilegal.
O Atlas destaca ainda o papel do monitoramento contínuo como ferramenta fundamental para orientar as ações dos órgãos ambientais e dos Ministérios Públicos estaduais.
Restingas seguem sob pressão
Apesar dos avanços, o relatório alerta que o cenário ainda exige vigilância permanente. A destruição de restingas, ecossistemas costeiros fundamentais para a proteção do litoral e da biodiversidade, permanece em níveis preocupantes.
Em 2025, foram perdidos 457 hectares de restingas, praticamente o mesmo volume registrado no ano anterior. O Ceará concentrou a maior parte das perdas, seguido por ocorrências em Santa Catarina, Rio Grande do Norte, Piauí e Bahia.
Segundo o Atlas, cada fragmento perdido faz diferença para a conservação do bioma, especialmente em uma região que abriga grande parte da população brasileira e concentra atividades econômicas essenciais.
Meta é zerar desmatamento até 2030
O desafio agora é manter a trajetória de queda e alcançar o desmatamento zero até 2030, meta alinhada aos compromissos climáticos internacionais assumidos pelo Brasil.
A restauração e a conservação da Mata Atlântica são consideradas estratégicas para garantir segurança hídrica, estabilidade climática e produtividade agrícola. O bioma também desempenha papel essencial na oferta de serviços ecossistêmicos que sustentam cidades, a produção de alimentos e a geração de energia.
A publicação da Lei da Mata Atlântica completa 20 anos em 2026, coincidindo com a 20ª edição do Atlas, uma das mais longevas iniciativas de monitoramento ambiental do país. Desde 1989, a parceria entre o INPE e a Fundação SOS Mata Atlântica consolidou-se como referência nacional no acompanhamento do desmatamento e na produção de conhecimento sobre um dos biomas mais ameaçados do Brasil.
“Os dados mostram que a proteção da Mata Atlântica está avançando, mas o desafio continua. É fundamental ampliar os esforços de restauração ecológica, recuperando áreas alteradas e fortalecendo a conectividade entre os remanescentes do bioma. Também é urgente a criação das Unidades de Conservação na Mata Atlântica, com processos em andamento. Precisamos combinar conservação e restauração para alcançar o desmatamento zero até 2030”, comenta Carolina Schäffer, vice-presidente e coordenadora da Apremavi.
Atlas da Mata Atlântica
O Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica é uma colaboração entre a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) que monitora a vegetação nativa do bioma desde 1989.
O relatório anual é uma referência no conhecimento sobre o desmatamento da Mata Atlântica e tem,ao longo de suas edições, contribuído para a identificação das regiões mais críticas à pesquisa e ao conhecimento, bem como para a atuação dos órgãos ambientais e dos Ministérios Públicos dos 17 estados abrangidos pelo bioma.
Autora: Thamara Santos de Almeida com informações da SOS Mata Atlântica
Revisão: Carolina Schäffer
Foto de capa: Miriam Prochnow