Geração Restauração: a restinga que volta a crescer em Florianópolis

26 mar, 2024 | Notícias

O sol extremo, ventos, salinidade e solo com poucos nutrientes formaram – uma fitofisionomia singular da Mata Atlântica. A evolução e adaptação das plantas ao ambiente formaram o que conhecemos hoje como Restinga, ameaçada constantemente pelo avanço da ocupação humana.

O Código Florestal determina que as restingas são Áreas de Preservação Permanente (APP). Na prática, isso não impede que este seja um dos ecossistemas mais ameaçados do Brasil.  No último Atlas da Mata Atlântica – estudo co-realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) – dois municípios catarinenses figuram na lista de maiores deflorestamentos em áreas de restinga: Itapoá e Araquari, com identificação de perda de 47 e 19 hectares entre 2021 e 2022, respectivamente. 

Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), um grupo de pesquisadores do Laboratório de Ecologia de Invasões Biológicas, Manejo e Conservação (LEIMAC) se dedica a transformar a realidade local. A restauração ecológica nas praias de Florianópolis ocorre desde 2022, coletando sementes em áreas conservadas, produzindo mudas nativas e plantando espécies que nunca deveriam ter deixado de existir entre o mar e o fim da faixa de areia. As atividades do Restaura Restinga no Viveiro Municipal situado no Monumento Natural Municipal da Lagoa do Peri iniciaram em setembro de 2022.

A maior parte das sementes é proveniente do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Unidade de Conservação que protege diversos ecossistemas de restinga. A coleta de sementes é realizada em diferentes pontos, sempre tentando obtê-las de um número maior de indivíduos para manutenção da diversidade genética. As coletas propiciam a produção de mudas de espécies de dunas frontais, como Canavalia rosea, Sophora tomentosa, Ipomoea pes-caprae, Dalbergia ecastaphyllum, Guapira opposita; e da restinga arbustiva e arbórea, como Myrcia palustris, Myrcia splendens, Ocotea pulchaella, Guapira opposita, Ouratia salicifolia e Geonoma schottiana.

 

Coleta de sementes de Canavalia rosea. Foto: Lais Stein.

As atividades no viveiro ocorrem semanalmente, buscando efetivar a semeadura com maior prontidão possível para não perder a viabilidade das sementes. O processo de semeadura ocorre em bandejas preenchidas com areia da praia, buscando um ambiente próximo ao natural. Conforme as sementes germinam, as plântulas são transferidas para embalagens individuais, onde o crescimento ocorre até o momento ideal para o plantio. 

O trabalho é coordenado pela professora dr. Michele Dechoum e efetivado por duas bolsistas, Marina Tonial e Lais Stein, com auxílio de pessoas voluntárias. O resultado do trabalho coletivo é plantando em diferentes praias da Ilha de Santa Catarina. Inicialmente, o escopo do Restaura Restinga buscou a restauração de uma área no interior do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, submetida à plantação de eucaliptos durante as décadas de 1960 e 1970, ilustrando a realidade de alteração do ambiente promovida pelos humanos. Em casos dessa natureza, o trabalho inicia antes do plantio, com a retirada e controle da espécie exótica introduzida.

Lais Stein, integrante do projeto, destaca os principais desafios do trabalho: “Percebemos escassez de referências sobre a germinação de espécies de restinga. Muitas espécies apresentam dormência cuja quebra é desconhecida, em alguns casos aguardamos alguns meses a germinação sem quebra forçada da dormência, em outros casos estamos fazendo testes de propagação por estaquia, como é o caso da Gaylussacia brasiliensis.” 

Registros das atividades para a produção das mudas nativas. Fotos: Vitor Lauro Zanelatto.

Desde o início do trabalho no viveiro, mais de 5.000 mudas foram produzidas, plantadas e zeladas pela equipe do projeto. O ambiente onde as mudas são plantadas e onde a restauração acontece torna-se então objeto de pesquisa, com o monitoramento mensal da área, buscando avaliar a sobrevivência e crescimento dos indivíduos. A coleta de dados permite a avaliação do efeito legado de eucalipto, isto é, as condições que a espécie exótica deixa no ambiente mesmo após ser retirada. 

O monitoramento também era efetivado numa área de duna frontal em processo de erosão principalmente devido ao pisoteamento. Neste local avaliava-se as influências do substrato de crescimento das mudas na sobrevivência e crescimento dos indivíduos. Essa área infelizmente teve grandes conflitos com a presença humana dada a maior acessibilidade do local, o experimento sofreu depredação diversas vezes, principalmente no período do ano novo, onde a circulação de pessoas na praia se intensifica.

Stein também destaca a importância da consciência das pessoas que frequentam as áreas de restinga para o sucesso das atividades de restauração: “Apesar de sempre indicarmos com placas as áreas submetidas ao plantio de mudas, muitas vezes as plantas sofrem pisoteamento, principalmente em áreas de dunas frontais que margeiam o ambiente praial, essa dificuldade se relaciona principalmente à época da alta temporada e à desinformação da população acerca da fragilidade da vegetação de restinga perante ao pisoteamento.”, destaca. 

Além do projeto de restauração, o LEIMAC também desenvolve atividades de extensão em parceria com o Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental. Fundado pela fellow Ashoka Sílvia R. Ziller, o instituto é referência em pesquisas sobre espécies exóticas invasoras no Brasil. Juntas, as organizações desenvolvem um programa para o controle de Pinus sp. e outras espécies invasoras em Florianópolis. Em 14 anos as ações comunitárias eliminaram cerca de 420 mil pinus do Parque das Dunas.

 

Atividades de restauração e controle de espécies invasoras em Florianópolis. Fotos: Lais Stein, Arquivo LEIMAC e Vitor Lauro Zanelatto. 

Sobre o Laboratório de Ecologia de Invasões Biológicas, Manejo e Conservação (LEIMAC)

Estabelecido em 2019, o laboratório tem como foco de estudo as invasões biológicas, que ocorrem em decorrência da introdução – intencional e acidental – de espécies associadas a atividades humanas. Não há um organismo ou um grupo de organismos que sejam o foco dos estudos desenvolvidos, mas sim a compreensão dos mecanismos envolvidos em processos de invasões biológicas, dos impactos provocados desde o nível de organismo até o nível de ecossistema, e as respostas das espécies exóticas invasoras e dos sistemas invadidos ao manejo.

Os principais objetivos são avaliar fatores-chave relacionados a processos de invasão biológicas por espécies exóticas em ecossistemas tropicais e subtropicais; Identificar impactos provocados por espécies exóticas invasoras nesses ecossistemas e; avaliar o efeito do manejo em comunidades invadidas e na restauração de funções e processos ecossistêmicos.

> Conheça os projetos desenvolvidos pelo laboratório

Autor: Vitor Lauro Zanelatto
Colaboração: Lais Stein
Revisão: Thamara Santos de Almeida
Foto de capa: Vitor Lauro Zanelatto

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