COP28 inicia a abordagem da principal causa das mudanças climáticas, porém com medidas insuficientes

21 dez, 2023 | Mudanças Climáticas, Notícias

Em tempos de crise climática, mais uma Conferência das Partes foi finalizada, com avanços na eliminação da principal causa das mudanças climáticas, mas ainda insuficientes. A Apremavi entrevistou uma das brasileiras que participou do evento para saber mais, confira.

A COP28 finalizou com a problemática dos combustíveis fósseis sendo encarada pela primeira vez desde 1994, quando a Convenção do Clima da ONU entrou em vigor. Os países participantes concordaram em realizar uma transição energética com uma redução gradual no uso de combustíveis fósseis. Também foram aprovados o Fundo de Perdas e Danos e o Objetivo Global de Adaptação, para tratar dos impactos da mudança do clima.

Contudo, os países optaram por não assumir um compromisso total com a eliminação completa desses combustíveis. A mensagem transmitida pela cúpula é encorajadora, representando a primeira vez que um acordo global aborda, mesmo que de forma superficial, a questão dos combustíveis fósseis. Esse movimento estabelece as bases para o desenvolvimento de ações setoriais ao longo do tempo. No entanto, de acordo com a comunidade científica, essa iniciativa não atende plenamente às exigências para limitar o aquecimento global a 1,5ºC, conforme estabelecido pelo Acordo de Paris.

“Os países agora precisam decidir que verdade irá prevalecer: a do texto da COP ou a dos seus planos de explorar cada vez mais petróleo, carvão e gás”, comenta Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima

Para saber um pouco mais sobre os bastidores e sobre como foi essa COP a equipe da Apremavi entrevistou Cândida Schaedler, jovem brasileira, jornalista e voluntária da EmpoderaClima, que participou do evento, confira:

Cândida Schaedler na COP28.

Cândida Schaedler, jornalista e voluntária da EmpoderaClima, na COP28.

Como foi participar da tua primeira COP?

Foi uma experiência gigantesca, em muitos níveis. A COP tem uma dimensão enorme, porque decisões super importantes são tomadas a toda hora. Então, é uma mistura de sensações – que vai desde a gente se sentir muito pequeno e insignificante diante daquilo tudo, quanto a gente entender que faz, sim, diferença estar lá, sobretudo representando a sociedade civil brasileira. Nunca tinha estado num local em que o networking atingiu aquele nível. Participei de uma reunião da sociedade civil com a Marina Silva (Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima), conheci pessoalmente colegas com quem trabalho online há quase dois anos e do nada via passar do meu lado pessoas com atuação de alto nível, tipo Sonia Guajajara e Vanessa Nakate. Foi surreal. Boa parte da delegação da EmpoderaClima, da qual faço parte, também estava com a credencial do governo brasileiro, chamada de Party Overflow, então pude acompanhar até algumas negociações entre países – o que é incrível, porque apesar de ser uma discussão muito técnica em relação a metas, responsabilidades e nomenclaturas, é um aprendizado imensurável ver algo histórico se desenrolar à tua frente. Enfim, ir à COP é uma experiência transformadora, que confirmou a minha percepção de que o tema das mudanças climáticas virou, para o bem e para o mal, mainstream. Também reforçou a certeza de que somente com ações coletivas, em rede, integradas e sistêmicas que a gente vai conseguir endereçar esse desafio.

 

Na sua opinião, qual a importância dessas conferências?

A COP é fundamental no estabelecimento de uma governança global que olhe para a questão das mudanças climáticas como algo que tem responsabilidades e danos que não são compartilhados de maneira equitativa pelos países do Norte e do Sul Global. É muito potente ver os países signatários do sistema ONU sentados em volta de uma mesa de negociação discutindo como vão fazer para endereçar esse problema a partir do que foi firmado no Acordo de Paris, em 2015. A diplomacia é fundamental nessa construção, porque é dali que surgem compromissos compartilhados pelas nações. Se a mudança climática é global, a gente precisa de uma governança global para lidar com ela – não tem como fugir disso. No momento em que um país, que pode estar do outro lado do mundo, continua emitindo gases de efeito estufa, todos os outros países também sofrem as consequências. Estamos interconectados – e é preciso resolver as coisas assim. Portanto, vejo que a COP é esse espaço de discussão, advocacy, negociação, mas também de protesto, formação de redes e de parcerias em nível global. É claro que a ação que faz a diferença na ponta é, depois, levada às esferas nacional, estadual e local – mas uma coisa não exclui a outra.

 

Quais os principais avanços e lacunas dessa COP?

Essa COP foi histórica em muitos sentidos, mas não teve resultados unânimes. O Balanço Global (documento final que é divulgado com os resultados das negociações) firmou, pela primeira vez, uma transição para fora dos combustíveis fósseis (transition out), com prazo até 2050. Embora isso seja histórico – pela primeira vez os países falaram de parar de explorar combustíveis que enriqueceram e ainda enriquecem nações -, o resultado foi insuficiente por conta do prazo. Isso porque até 2050 não vai dar tempo de manter a meta de aquecimento médio global em 1,5 °C, como proposto no Acordo de Paris. 

Os ativistas estavam pedindo por “phase out”, ou seja, pela interrupção total e imediata da produção e exploração desses combustíveis, nos quais se incluem petróleo, carvão mineral e gás natural, grandes emissores de gases de efeito estufa. Ainda assim, também não se estabeleceu de que forma essa transição vai ocorrer, quais serão os mecanismos de financiamento, as responsabilidades compartilhadas (é o Norte Global que tem que puxar a frente, a própria Marina Silva falou isso)… Enfim, ficaram lacunas que serão discutidas novamente só em 2024, nas reuniões do SBs (Subsidiary Bodies), em Bonn, na Alemanha, e depois na COP29, que vai ser realizada no Azerbaijão (outro país petroleiro). A questão é que a janela para frear o aquecimento em 1,5 °C está se fechando, e as medidas apresentadas ainda não são suficientes para atingir essa meta.

Outro marco da COP28 foi o lançamento do fundo global de Perdas e Danos, algo muito esperado desde a COP anterior, no Egito. Esse fundo recebeu doações voluntárias de países como Japão, Emirados Árabes Unidos e Alemanha, somando US$ 420 milhões. Ele ficará hospedado no Banco Mundial e servirá para compensar as nações mais vulneráveis pelas perdas sofridas por conta das mudanças climáticas. Então é fundamental ficar atento a isso, porque no contexto do que vivemos no Brasil, com secas e enxurradas cada vez mais comuns, é uma fonte de financiamento possível para implementação de medidas de adaptação às comunidades afetadas.

Além disso, também acompanhei as questões de discussões relativas a sistemas alimentares e a gênero, pela EmpoderaClima – ambos os temas com poucos avanços substanciais.

 

Quais são os próximos passos?

Continuar cobrando ações, em todas as esferas – nacional, estadual e municipal. O que é decidido na COP fala de uma governança global que deve ser adotada em outros níveis, iniciando pela implementação de ações nacionais. Nesse sentido, é preciso continuar atuando em rede para que as metas do Acordo de Paris sejam cumpridas, para acessar o financiamento para adaptação, para implementar as medidas de mitigação e para que isso tudo seja feito de forma justa, com justiça climática – ou seja, entendendo que precisamos sempre pensar nas pessoas mais vulneráveis. Justiça climática é justiça social, então é sempre com isso em mente que a gente se movimenta. Na EmpoderaClima, por exemplo, nosso advocacy vai na linha de falar sobre equidade de gênero, pois meninas e jovens mulheres precisam ter acesso à educação e a oportunidades para liderar transformações na criação de um mundo sustentável e justo para todas as pessoas.

 

O que as pessoas podem fazer para contribuir no enfrentamento da emergência climática?

Essa é a pergunta de milhões, a mais importante que cada pessoa pode se fazer neste momento. Sou defensora de ações coletivas e políticas, porque é em rede e em comunidade que a gente ganha força. Claro que as ações individuais não podem nem devem ser menosprezadas – a regeneração começa no nível individual, com mudança de hábitos, autoconhecimento e reconexão com a natureza. No entanto, se engajar em coletivos, ONGs, movimentos, redes, coalizões, qualquer coisa nesse sentido tem uma força gigante. Diria para cada um ver o que move a si mesmo, o tema que tem como causa, e se engajar em torno dele com outras pessoas. Hoje, já vejo que não há mais tema que não seja perpassado pelas mudanças climáticas. Ele é, por si mesmo, transversal – tange gênero, alimentação, mobilidade, segurança pública, saneamento, moradia, cultura, educação etc. Tudo é clima, a gente precisa ter isso em mente e trabalhar com o que nos move.

 

Conte um pouco sobre você, seu trabalho e a organização que você representou na COP:

Sou jornalista, mestra em Comunicação, especialista em Relações Internacionais e defensora da reconexão das pessoas à natureza como a maior solução para a crise do clima. Fui à COP como parte da EmpoderaClima, organização na qual atuo como voluntária há quase dois anos. Na Empodera, sou atualmente assessora de imprensa e liderei a estratégia da organização como co-anfitriã jovem do Pavilhão de Sistemas Alimentares da COP28, onde pudemos trazer a discussão da equidade de gênero para dentro desse debate, pensando na educação de meninas e na representatividade feminina na agricultura, por exemplo. No Pavilhão, fomos selecionados ao lado de 12 organizações do mundo todo – e a única iniciativa brasileira. Nesta COP – que foi a quarta em que a Empodera participou -, estivemos com sete delegadas presentes.

A EmpoderaClima foi fundada em 2019, é liderada por jovens e tem o objetivo de trazer mais consciência sobre a desproporcionalidade dos efeitos das mudanças do clima sobre mulheres. Por isso, a organização atua para proporcionar acesso à educação climática a meninas e jovens mulheres por meio de uma base de dados multilíngue e por meio de projetos de educação climática com foco no Sul Global, intervenções de alto nível em eventos e advocacy em parceria com diversas instituições do mundo todo. Temos parcerias com instituições como UNGEI (Iniciativa da ONU para Educação de Meninas), Fundo Malala, Plan International, Global Landscapes Forum e Instituto Marielle Franco, por exemplo. 

 

Autora: Thamara Santos de Almeida com informações do Observatório do Clima.
Revisão: Carolina Schäffer.
Foto de capa: Protesto de diversas ONGs durante a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas COP28 na Expo City Dubai em 11 de dezembro de 2023, em Dubai, Emirados Árabes Unidos ©️ COP28/Stuart Wilson

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