Expedição Pampa identifica ações para a conservação e valorização do bioma

Expedição Pampa identifica ações para a conservação e valorização do bioma

Expedição Pampa identifica ações para a conservação e valorização do bioma

Entre os dias 06 e 13 de outubro, o Observatório do Código Florestal (OCF) percorreu cerca de 1.800 quilômetros pelo Pampa em uma jornada de escuta e troca de saberes sobre a implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa no bioma. 

A Expedição Pampa teve como propósito dialogar com produtores rurais, comunidades tradicionais, pesquisadores, organizações sociais e órgãos públicos para compreender os desafios e oportunidades da aplicação do Código Florestal (Lei Federal nº 12.651/2012) no bioma e buscar caminhos para fortalecer a conservação e a produção sustentável.

A ação integra um movimento nacional do OCF, que tem visitado diferentes biomas brasileiros para levantar percepções locais sobre o cumprimento da lei, fomentar a troca de experiências e contribuir com conhecimento técnico que auxilie na sua regionalização. A Apremavi acompanhou a expedição, compartilhando aprendizados das iniciativas de conservação e restauração da vegetação nativa desenvolvidas na Mata Atlântica e  ações para a valorização dos modos de vida locais que sustentam os territórios.

Um roteiro de aprendizados e conexões

Ao longo de oito dias e dez paradas, a expedição percorreu municípios emblemáticos do Pampa, reunindo representantes de diversas áreas. O primeiro encontro, realizado no Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, reuniu os pesquisadores Valério Pillar, Gerhard Overbeck e Carlos Nabinger; e também a promotora de justiça Annelise Steigleder. As discussões destacaram a necessidade de maior visibilidade para a proteção e valorização das particularidades do bioma, que segue ameaçado pela conversão de áreas naturais, especialmente pelo avanço de culturas agrícolas extensivas, como  soja e silvicultura.

“Talvez uma possibilidade é que o Pampa tivesse mais Áreas de Preservação Ambiental (APAs), que permitissem conciliar a presença do gado com a conservação do território. Hoje, não temos uma legislação que realmente proteja o Pampa e sua paisagem cultural”, comenta Annelise Steigleder, promotora de justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

Segundo os pesquisadores, a Lei de Proteção da Vegetação Nativa não reflete bem as especificidades do Pampa, onde as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais (RLs) são pequenas e não representam o ecossistema campestre. Foi apontado que muitas áreas são convertidas antes da obtenção das licenças adequadas, e que há uma defasagem significativa entre os dados declarados no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a realidade mapeada por sistemas de monitoramento, como o MapBiomas.

“A partir do que foi declarado no CAR e o que consta de vegetação nativa, a conta não fecha. Foram declarados cerca de 4 milhões de hectares de áreas nativas no CAR, mas o MapBiomas mostra 8 milhões. Há um déficit evidente. Muitas pessoas foram orientadas a declarar campos com gado como áreas de uso antrópico, e por isso esses campos não aparecem como vegetação natural”, relata Valério Pillar, pesquisador do departamento de Ecologia da UFRGS.

Na sequência, a expedição passou por Tapes, visitando a Rota dos Butiazais e conhecendo a Fazenda Três Irmãos, que alia turismo rural e conservação de butiás, espécie símbolo da sociobiodiversidade do Pampa. Em São Lourenço do Sul, o grupo foi recebido pelo Kilombo Boqueirão, exemplo de resistência cultural e preservação dos saberes ancestrais. Em Pelotas, a visita à Charqueada São João resgatou a história do ciclo do charque, que moldou a economia e a cultura da região.

A jornada seguiu para Candiota, onde a equipe conheceu a Rede de Produção de Sementes Agroecológicas Bionatur, empresa de produção de sementes orgânicas mantida por grupos de assentados da Reforma Agrária.  O encontro ressaltou a importância de políticas que considerem as especificidades locais para fortalecer a agricultura sustentável frente à expansão das monoculturas. Em Bagé, na propriedade das irmãs Collares, a expedição observou na prática como o manejo pastoril adequado pode conservar biodiversidade e cultura, reafirmando o papel da pecuária familiar como aliada da sustentabilidade. A comunidade e proprietários juntamente com outros municípios buscam impedir atividades de  mineração, pretendidas na região. 

Nos últimos dias, entre Dom Pedrito e Caçapava do Sul, a equipe visitou vinhedos e olivais que demonstram como a produção de uvas e oliveiras pode coexistir com a conservação das paisagens naturais. Experiências em propriedades como Guatambu, Palomas e Olivopampa mostraram práticas que reduzem o uso de agrotóxicos, recuperam o solo e preservam a vegetação nativa. 

A Estância Guatambu retrata uma grande propriedade que, além da agricultura e pecuária, possui também o plantio de uvas. O diferencial está nas práticas sustentáveis adotadas pelo produtor, que utiliza produtos biológicos no cultivo de  soja, no arroz e nas pastagens. A propriedade conta com uma biofábrica que produz insumos a partir de bactérias e abriga uma das maiores vinícolas da região. 

O roteiro encerrou-se em locais emblemáticos, como o Parque Natural Municipal da Pedra do Segredo e as Guaritas do Geoparque Caçapava, destacando o potencial do turismo de natureza e da economia de base local.

Equipe da Expedição Pampa e membros do Kilombo Bokeirão em São Lourenço

Expedição Pampa realizada pelo Observatório do Código Florestal entre os dias 06 e 13 de outubro. Fotos: Thamara Santos de Almeida, Leandro Casanova e Manoela Meyer.

Documento técnico e recomendações

Ao final da expedição, o Observatório do Código Florestal entregou um documento técnico com recomendações e propostas de políticas públicas para a conservação e valorização do Pampa. O material foi apresentado na Assembleia Legislativa e à Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (SEMA), em reuniões com o deputado estadual Miguel Rossetto e a secretária Marjorie Kauffmann.

O levantamento destaca a vocação produtiva do bioma, com potencial para a produção de carne de alta qualidade, vinho, azeite e lã, e aponta desafios como a perda acelerada da vegetação nativa, a baixa cobertura por Unidades de Conservação (apenas 3%), e a lentidão na análise dos Cadastros Ambientais Rurais (CAR), dos quais menos de 1% foram avaliados no estado.

Entre as propostas apresentadas, estão:

  • Avançar na implementação do Programa de Regularização Ambiental (PRA);
  • Reconhecer os pecuaristas familiares como comunidades tradicionais;
  • Criar uma política estadual de pagamento por serviços ambientais;
  • Fortalecer o Zoneamento Ecológico-Econômico com base científica e participação social;
  • Fomentar o mercado de restauração da vegetação campestre e o turismo sustentável;
  • Estabelecer territórios livres de mineração e áreas livres de pulverização de agrotóxicos.
Por um Pampa vivo e sustentável

O documento reforça que, se o Rio Grande do Sul pretende que o Pampa seja protagonista na construção de um futuro mais justo, resiliente e sustentável, é essencial fortalecer a governança ambiental participativa, reconhecer os direitos das comunidades locais e promover uma economia de baixo carbono.

“O Pampa tem papel estratégico para o desenvolvimento inclusivo e rentável do Rio Grande do Sul. Queremos fortalecer o diálogo para que as políticas públicas considerem as realidades e potencialidades do território”, afirmou Marcelo Elvira, secretário executivo do Observatório do Código Florestal.

A Expedição Pampa foi um convite à escuta, à valorização dos saberes locais e à construção conjunta de soluções para a proteção do bioma; conservando sua biodiversidade, cultura e a identidade de quem integra essa  paisagem.

> Saiba mais

 

Sobre o Observatório do Código Florestal

É uma rede de 48 organizações da sociedade civil criada em 2013 com o objetivo de monitorar a implementação bem-sucedida da Lei de proteção da vegetação nativa (Lei Federal nº 12.651/2012). Tem como propósito fortalecer o papel da sociedade civil na defesa da vegetação nativa brasileira e articular com os mais diversos atores pela proteção da vegetação nativa, produção sustentável e recuperação de ambientes naturais.

> Conheça 

Autora: Thamara Santos de Almeida e Leandro Casanova com informações do Observatório do Código Florestal
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto (Apremavi), Willian Oliveira e Carolina Duccini (Observatório do Código Florestal)
Foto de capa: Vitor Lauro Zanelatto

Papagaio-de-peito-roxo: o embaixador da conservação na Floresta de Araucárias

Papagaio-de-peito-roxo: o embaixador da conservação na Floresta de Araucárias

Papagaio-de-peito-roxo: o embaixador da conservação na Floresta de Araucárias

O papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) é uma das aves mais emblemáticas e ameaçadas do Brasil, e pode ser observado como um símbolo de resistência da biodiversidade na Mata Atlântica.Ocorre principalmente no Sul e Sudeste do Brasil, com pequenas populações remanescentes no Paraguai e na Argentina. Sua história é marcada por cores vibrantes, revoadas sonoras e pelos desafios à sobrevivência em meio à perda de habitat e ao tráfico ilegal.

Uma espécie dependente das Florestas com Araucárias

O papagaio-de-peito-roxo tem forte ligação com a Floresta Ombrófila Mista, também conhecida como Floresta com Araucárias. Com cerca de 30 cm de comprimento, plumagem verde e peito arroxeado – que explica o nome popular – a espécie se alimenta de frutos e sementes, especialmente do pinhão, semente da araucária, que abre com o bico robusto e curvado.

Ao se alimentar dos pinhões e de frutos de espécies como a juçara (Euterpe edulis) e a canela-preta (Ocotea puberula), o papagaio atua como dispersor de sementes, contribuindo com a restauração das florestas. Os pinhões bicados por esses papagaios germinam com mais sucesso, reforçando o papel ecológico da espécie.

O período reprodutivo ocorre entre setembro e janeiro, quando as fêmeas escolhem cavidades naturais em árvores de grande porte para depositar entre  dois e quatro ovos. A perda dessas árvores, essenciais para a reprodução, é hoje uma das principais ameaças à espécie, junto ao desmatamento e ao tráfico de filhotes.

Pesquisas recentes estimam que existam menos de 9 mil papagaios-de-peito-roxo em vida livre, distribuídos de forma descontínua pelos fragmentos da  Mata Atlântica. Contagens realizadas entre 2016 e 2017, utilizando modelos estatísticos que corrigem falhas de detecção, apontaram uma população global de cerca de 8.000 indivíduos, sem sinais de crescimento ou declínio expressivo.

Extinção local e reintrodução no Parque Nacional das Araucárias

No Parque Nacional das Araucárias, entre Passos Maia e Ponte Serrada (SC), o papagaio-de-peito-roxo chegou a desaparecer na década de 1980. O desmatamento e a captura ilegal levaram à extinção local de uma espécie que, historicamente, coloria os céus do Oeste Catarinense.

Desde 2010 um projeto de reintrodução pioneiro, liderado pelo Instituto Fauna Brasil, está contribuindo para reverter essa história. A iniciativa teve início com a determinação da pesquisadora Vanessa Kanaan, que começou o trabalho ainda durante o doutorado, ao perceber que muitos papagaios resgatados do tráfico não tinham destino após a reabilitação durante um estágio no Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas): “o que começou como uma tentativa acabou crescendo. Conseguimos reverter uma extinção local e contribuir para a conservação da espécie. Quando vimos os papagaios voando e vocalizando, entendendo a vida em liberdade, aquilo nos tocou profundamente”, relatou Vanessa em entrevista à Apremavi.

O processo envolve reabilitação, treinamento comportamental, adaptação em viveiro de soltura e monitoramento por meio de dispositivos eletrônicos e observações de campo, muitas delas com o apoio de cidadãos cientistas.

Desde o início do projeto, cerca de 250 indivíduos já retornaram à natureza. Paralelamente, o Instituto desenvolve ações de educação ambiental, promove o evento “Vem Passarinhar” para observação de aves e já executou o projeto Amigos do Roxinho, que gera renda e fortalece o vínculo entre a comunidade e o parque. “Antes, era comum ver papagaios em gaiolas. Hoje, isso praticamente não acontece mais em Passos Maia. O papagaio-de-peito-roxo virou um símbolo do parque e um embaixador da conservação”, comenta Vanessa.

Monitoramento científico e cooperação internacional

No Paraná, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) desenvolve desde 2018 um programa de monitoramento e conservação da espécie. O projeto envolve a anilhagem de filhotes, o acompanhamento de ninhos naturais e artificiais e a coleta de dados populacionais nas regiões de Campina Grande do Sul e Bocaiúva do Sul (PR).

Um mini documentário, lançado pela SPVS e disponível gratuitamente no YouTube, mostra o cotidiano do trabalho de campo e reforça a importância da conservação da espécie.

O papagaio-de-peito-roxo está hoje classificado como “Em Perigo” na Lista Vermelha da IUCN e “Vulnerável” na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. A espécie se tornou um símbolo de esperança e restauração da Mata Atlântica e sua biodiversidade. Sua presença na Floresta com Araucárias mostra que, com ciência, dedicação e envolvimento comunitário, é possível reverter histórias de perda.

Monitoramento papagaio-de-peito-roxo_no Parque Nacional das Araucárias

Ações de reintrodução e monitoramento do papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) realizadas pelo Instituto Fauna Brasil. Fotos: Vanessa Kanaan/Instituto Fauna Brasil.

Papagaio-de-peito-roxo

Nome científico: Amazona vinacea.

Família: Psittacidae.

Habitat: Matas secas, pinheirais e orlas de capões. Espécie considerada endêmica da Mata Atlântica.

Dieta: frugívoro.

Hábito de vida: vive em bandos que podem variar em tamanho.

Distribuição: Sudeste e Sul do Brasil, oeste do Paraguai e nordeste argentino.

Ameaças: tráfico ilegal e degradação ou fragmentação do habitat.

Status de conservação: ‘Em Perigo’ pela União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN) e ‘Vulnerável’, segundo o  Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

 

Referências consultadas:

BirdLife International (2017). Amazona vinacea. The IUCN Red List of Threatened Species 2017: e.T22686374A118954406. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2017-3.RLTS.T22686374A118954406.en. Accessed on 21 October 2025.

Kilpp, J. C., Prestes, N. P., Pizzol, G. E. D., & Martinez, J. (2015). Dieta alimentar de Amazona vinacea no sul e sudeste de Santa Catarina, Brasil. Atualidades ornitológicas, 183(6).

Silveira, L.F.; Lima, D.M.; Dias, F.F.; Ubaid, F.K.; Bencke, G.A.; Repenning, M.; Somenzari, M.; Cerqueira, P.V.; Dias, R.A.; Alquezar, R.D.; Costa, T.V.V. 2022. Amazona vinacea (Kuhl, 1820). Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade – SALVE – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. Disponível em: https://salve.icmbio.gov.br DOI: 10.37002/salve.ficha.24277 – Acesso em: 21 de out. de 2025.

Zulian, V., Müller, E. S., Cockle, K. L., Lesterhuis, A., Júnior, R. T., Prestes, N. P., … & Ferraz, G. (2020). Addressing multiple sources of uncertainty in the estimation of global parrot abundance from roost counts: A case study with the Vinaceous-breasted Parrot (Amazona vinacea). Biological Conservation, 248, 108672.

WikiAves (2021). A Enciclopédia das Aves do Brasil. Disponível em: http://www.wikiaves.com.br.

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto
Foto de capa: Vanessa Kanaan/Instituto Fauna Brasil

Parque Nacional das Araucárias completa 20 anos de existência

Parque Nacional das Araucárias completa 20 anos de existência

Parque Nacional das Araucárias completa 20 anos de existência

Há 20 anos, em 19 de outubro de 2005, foi criado o Parque Nacional das Araucárias (PARNA das Araucárias). Criado por decreto federal, o Parque abrange 12.841 hectares distribuídos entre os municípios de Ponte Serrada e Passos Maia, no Oeste Catarinense, e conserva um dos últimos grandes remanescentes de Floresta Ombrófila Mista do estado.

Sua criação foi resultado de um amplo trabalho coletivo que envolveu o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), o governo estadual, prefeituras, universidades e organizações da sociedade civil, entre elas a Apremavi. O objetivo foi garantir a conservação dos ecossistemas e da biodiversidade da região, ameaçada pela fragmentação e pela ação humana.

 

Um refúgio de biodiversidade

Logo nos primeiros anos, o PARNA das Araucárias se revelou muito importante para a biodiversidade. Levantamentos realizados em 2008 pela Apremavi registraram 26 espécies de anfíbios, 204 espécies de aves e 27 espécies de mamíferos de médio e grande porte, incluindo espécies ameaçadas de extinção, entre elas o puma (Puma concolor), o gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus) e o veado-poca (Mazama nana).

Espécies emblemáticas, como o pica-pau-de-cara-canela (Dryocopus galeatus) e o macuco (Tinamus solitarius), também encontram abrigo nos limites do parque, que também abriga as nascentes dos rios que formam a bacia do rio Chapecó.

> Conheça a cartilha sobre a UC

O papel da Apremavi na criação e consolidação

Após a criação do Parque, a Apremavi liderou uma série de projetos voltados à estruturação da UC e ao engajamento comunitário. “Após o processo de criação, em 2005, a Apremavi teve projetos aprovados e iniciamos um trabalho de envolvimento da comunidade. Trabalhamos com a formação dos conselhos consultivos e envolvemos diversos setores da sociedade, para que as pessoas tivessem acesso às Unidades de Conservação e também desmistificar um pouco o processo de sua criação”, relata Edilaine Dick, coordenadora de projetos da Apremavi.

Esses conselhos se tornaram espaços fundamentais de participação social e orientação da gestão das UCs. A Apremavi também foi responsável pela elaboração do Plano de Manejo, entre 2007 e 2010. “No Plano de Manejo realizamos o levantamento de fauna e flora e identificamos potenciais turísticos, o que culminou na elaboração de um documento que, até hoje, serve como guia para orientar as atividades do ICMBio”, complementa Edilaine.

Além disso, a Apremavi conduziu projetos de restauração ecológica em áreas da zona de amortecimento, envolvendo agricultores locais na recuperação de áreas alteradas e melhoria da qualidade ambiental das propriedades.

Cachoeira do Parque Nacional das Araucárias

Registros da paisagem do Parque Nacional das Araucárias e ações realizadas pela Apremavi desde 2005. Fotos: Arquivo Apremavi e Thamara Santos de Almeida

Papagaio-de-peito-roxo: o embaixador do Parque

Uma das ações mais importantes ao longo desses 20 anos é a reintrodução do papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), espécie endêmica da Mata Atlântica que havia sido extinta localmente. O trabalho representa um caso de sucesso de conservação da biodiversidade  no Sul do Brasil, conforme nos conta a pesquisadora líder do trabalho: “o que começou apenas como uma tentativa acabou crescendo. Conseguimos reverter uma extinção local e contribuir para a implementação da Unidade de Conservação e para a conservação da espécie”, relata Vanessa Kanaan, fundadora do Instituto Fauna Brasil.

“Antes, era comum ver papagaios em gaiolas. Hoje, isso praticamente não acontece mais em Passos Maia. A população passou a ver o papagaio-de-peito-roxo como um símbolo do Parque.” Com 15 anos de existência, o projeto já realizou mais de uma dezena de solturas e desenvolve tecnologias inovadoras, como monitoramento por bioacústica e drones termais, além de ações de educação ambiental e ciência cidadã com escolas e moradores locais.

“O papagaio-de-peito-roxo se tornou um embaixador da conservação. A comunidade o adotou como símbolo, e, a partir dele, as pessoas começaram a reparar em outras espécies e aspectos da natureza ao redor”, reforça Vanessa.

Papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) espécie ameaçada e reintroduzida no Parque Nacional das Araucárias

Ações de soltura e monitoramento do papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) no Parque Nacional das Araucárias pelo Instituto Fauna Brasil. Créditos: Vanessa Kanaan (Instituto Fauna Brasil) e Gabriel Brutti.

O olhar dos pesquisadores e moradores locais

Moradora local de Ponte Serrada, a bióloga Alini Guinzelli Bortolaz se envolveu com o PARNA das Araucárias  em 2017, como voluntária do Instituto Fauna Brasil, e hoje atua como analista ambiental e guia de observação de aves.

“Com a criação do Parque, muitas aves ameaçadas tiveram uma nova chance de reprodução e alimentação. A importância é enorme para a conservação de espécies que não ocorrem em outro lugar. É também um espaço privilegiado para a observação de aves e turismo de natureza”, afirma Alini. Ela também apoia a pesquisa de monitoramento de outros grupos da fauna no parque, como os mamíferos.

 

Alini Bortolaz, analista ambiental da UC, apoiando o monitoramento de mamíferos no Parque Nacional das Araucárias

Alini Bortolaz, analista ambiental da UC, apoiando o monitoramento de mamíferos no PARNA das Araucárias. Foto: Thamara Santos de Almeida.

Gestão e importância da UC

Segundo Fábio de Almeida Abreu, gestor do PARNA das Araucárias, o Parque é hoje um modelo de integração entre a conservação e a comunidade local. “O Parque representa o maior fragmento de Floresta com Araucárias do oeste de Santa Catarina. Sua criação tem como objetivo proteger esse ecossistema e sua rica fauna e flora. Abriga espécies que dependem desse território para sobreviver, como o puma, o veado e o papagaio-de-peito-roxo”, comenta Fábio.

A gestão é feita pelo Núcleo de Gestão Integrada (NGI Palmas) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra outras duas Unidades de Conservação. A equipe é composta majoritariamente por profissionais da própria região, fortalecendo o vínculo comunitário. “Recentemente ampliamos nossa equipe, o que possibilitou uma presença constante no Parque e o avanço no processo de aquisição de novas áreas. Temos recebido um número crescente de estudantes e visitantes, e evoluímos significativamente na educação ambiental, na comunicação e nas parcerias com prefeituras, ONGs e instituições de pesquisa nesses 20 anos”, explica Fábio.

Ele ainda relata que essas duas décadas de existência demonstram que os objetivos do PARNA estão sendo cumpridos: “os objetivos definidos pela legislação estão sendo cumpridos: proteção territorial, conservação da biodiversidade, promoção da educação ambiental e manutenção dos serviços ecossistêmicos.”

> Saiba mais sobre o Parque

 

Equipe Apremavi, analistas ambientais e gestores do Parque Nacional das Araucárias

Equipe Apremavi, analistas ambientais e gestores do Parque Nacional das Araucárias em julho de 2025. Foto: Thamara Santos de Almeida.

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto e Carolina Schäffer
Foto de capa: Thamara Santos de Almeida

Festival das Abelhas incentiva a conservação das abelhas nativas e do meio ambiente

Festival das Abelhas incentiva a conservação das abelhas nativas e do meio ambiente

Festival das Abelhas incentiva a conservação das abelhas nativas e do meio ambiente

Nos dias 03 e 04 de outubro de 2025, a Apremavi esteve presente no 1º Festival das Abelhas, realizado em Santa Rosa de Lima (SC), cidade reconhecida como a Capital Nacional da Meliponicultura. 

O evento reuniu técnicos, produtores, estudantes, pesquisadores, representantes de instituições públicas e privadas, além de visitantes interessados em conhecer e valorizar o universo das abelhas. Os diálogos promovidos buscaram  valorizar e fortalecer a apicultura e a meliponicultura, promover a troca de conhecimentos entre produtores e pesquisadores, incentivar a conservação das abelhas nativas e do meio ambiente, e fortalecer o turismo e a economia local por meio da divulgação de produtos e práticas sustentáveis.

A programação envolveu oficinas, palestras, exposições, atividades gastronômicas e ações de turismo, destacando o papel das abelhas na polinização, na conservação da biodiversidade e na geração de renda. O evento contou com o apoio da Prefeitura Municipal de Santa Rosa de Lima,Associação dos Meliponicultores das Encostas da Serra Geral (AMESG), Cresol, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Santa Catarina (SENAR), Sindicato Rural de Rio Fortuna e Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA); uma articulação que reforça a importância das parcerias entre instituições públicas e privadas para promover debates para a sustentabilidade.

Assinatura de contrato do Conservador das Araucárias no Festival das Abelhas em Santa Rosa de Lima Outubro de 2025

Atividades do Festival das Abelhas e assinatura dos contratos do Conservador das Araucárias. Fotos: William Matheus Dias Melo da Fonseca e Wigold Schäffer.

Assinatura de contratos do Conservador das Araucárias

Durante o festival, foi realizada a assinatura de oito contratos de parceria rural para formar a participação no Conservador das Araucárias, projeto desenvolvido pela Apremavi em parceria com a Tetra Pak,  para restaurar e conservar a Mata Atlântica, com ênfase na captura de carbono, preservação das florestas com araucárias e proteção da biodiversidade e dos recursos naturais, promovendo também benefícios econômicos e sociais para as famílias envolvidas.

A Apremavi também participou do evento com um espaço educativo, apresentando materiais informativos, cartilhas e mudas de espécies nativas melíferas para comercialização. A ação teve como propósito fortalecer a educação ambiental e conscientizar o público sobre a importância das abelhas para a conservação.

Os proprietários agora participantes do Conservador das Araucárias presentes no evento relatam a emoção em estabelecer a parceria para participar do projeto. “Esse projeto significa muito para nós, pois estamos há anos [atuando] na agroecologia, preservando e cuidando. Então esse projeto chegou como uma recompensa de quem está protegendo os bens que são comuns a todos, como a água e o meio ambiente”, relata Valnério Assing, parceiro do projeto em Santa Rosa de Lima.

“Participar do projeto Conservador das Araucárias é muito gratificante. Um trabalho de conservação que já fazíamos agora pode ser retribuído através da restauração e conservação da nossa propriedade, e isso traz uma alegria enorme”, comenta Jackson Baumann, Secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Santa Rosa de Lima.

Christian Erhard Döbereiner, fundador da Reserva Araponga, uma das propriedades que já faziam parte do projeto, fala sobre a importância da parceria: “esse projeto é pioneiro e um marco e vem  trazer exemplo e estímulo aos proprietários que queiram seguir na mesma direção. Um projeto do futuro, à frente do seu tempo; é grande satisfação fazer parte desse trabalho do Conservador das Araucárias.”

 

Autores: Maíra Ratuchinski e William Fonseca
Revisão: Thamara Santos de Almeida e Vitor Lauro Zanelatto
Foto de capa: William Matheus Dias Melo da Fonseca

SER2025: conferência reuniu atores mundiais em prol da restauração ecológica

SER2025: conferência reuniu atores mundiais em prol da restauração ecológica

SER2025: conferência reuniu atores mundiais em prol da restauração ecológica

A Conferência reuniu mais de 1.400 pessoas e buscou transformar compromissos globais de restauração em estratégias de ação. 

A 11ª Conferência Mundial de Restauração Ecológica (SER2025), ocorreu entre os dias 30 de setembro e 4 de outubro de 2025 em Denver (EUA) promovida pela Society for Ecological Restoration  – SER (Sociedade Internacional de Restauração Ecológica)

O evento reuniu especialistas, pesquisadores, organizações e formuladores de políticas de todo o mundo, destacando as conferências da SER como um dos principais espaços de diálogo e aprendizado sobre restauração ecológica na escala global.

Durante o evento foi lançada a iniciativa REVIVE, uma estratégia global de seis pontos que busca ampliar a capacidade de restauração em escala, fornecendo conhecimento, recursos e ferramentas para profissionais, organizações, investidores e formuladores de políticas.

A SER2025 encerrou suas atividades com uma chamada global à ação para que governos, sociedade civil e setor privado mobilizem a restauração ecológica como caminho para a mudança sistêmica.  Além disso, foi destacado que a restauração é uma das soluções mais eficazes e custo-eficientes para enfrentar as crises interligadas de mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação da terra

A meta global de restaurar 30% das terras e águas degradadas até 2030 foi reafirmada como inspiradora, mas a organização ressaltou a necessidade de transformar o movimento em uma “revolução da restauração”.

Participação da Apremavi

A Apremavi marcou presença na conferência de forma remota, apresentando dois resumos em formato de vídeo que destacaram experiências na restauração da Mata Atlântica.

O primeiro vídeo apresentou o Projeto Conservador das Araucárias, que tem como objetivo restaurar 7.000 hectares de Mata Atlântica por meio de uma colaboração multissetorial. A iniciativa integra técnicas de restauração ecológica, sequestro de carbono e estruturas de governança que fortalecem a biodiversidade, a segurança hídrica e o uso sustentável do solo, um modelo escalável e inspirador para ações globais de restauração e mitigação das mudanças climáticas.

 

O segundo pôster destacou o Portal Ambiental, uma plataforma que agrega diferentes  tecnologias de monitoramento para acompanhar e avaliar a restauração da Mata Atlântica. Com mais de 1.229 propriedades cadastradas, o Portal promove transparência, engaja partes interessadas e amplia a qualidade e a efetividade dos esforços de restauração, servindo de referência para a ampliação dessas iniciativas em nível global.

Aprendizados para a Mata Atlântica

Amanda Fernandes, analista de projetos do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, foi uma das representantes do Brasil no evento. Para ela,  os debates da conferência trouxeram reflexões sobre a restauração ecológica no contexto brasileiro: “o evento contribuiu de diferentes formas, principalmente na questão de princípios e standards que eles têm. Também me tocou muito a importância de avançar na restauração de forma coletiva. E outro ponto é pensar a restauração da Mata Atlântica como restauração de ecossistemas, não apenas florestal, mas também de outras fitofisionomias que compõem esse bioma.”

Amanda também destacou o reconhecimento da Rede Nativas – Mulheres na Restauração Ecológica, presente na conferência: “foi emocionante ver o reconhecimento do nosso trabalho. Somos hoje cerca de 1.200 mulheres de todos os biomas do Brasil, com 15 na coordenação e outras 35 colaboradoras. Não vi em nenhum outro lugar uma rede de mulheres na restauração com a força e abrangência da Rede Nativas. Isso reforça nossa importância como coletivo e a necessidade de avançar em parcerias com outras organizações e redes biomáticas”, finalizou.

Sobre a Society for Ecological Restoration (SER)

A Society for Ecological Restoration é uma rede global de profissionais, cientistas e organizações comprometidos em promover abordagens participativas e baseadas no conhecimento para a restauração ecológica. Com mais de 5.000 membros em todo o mundo, a SER oferece aos seus membros acesso a uma comunidade internacional, publicações científicas, oportunidades de certificação e eventos de formação contínua.

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Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto e Miriam Prochnow
Foto de capa: Carolina Schäffer

Parque Mata Atlântica reúne moradores e visitantes em um dia de integração entre cultura e meio ambiente

Parque Mata Atlântica reúne moradores e visitantes em um dia de integração entre cultura e meio ambiente

Parque Mata Atlântica reúne moradores e visitantes em um dia de integração entre cultura e meio ambiente

No último sábado (27/09) ocorreu em Atalanta o “1° Viver Atalanta: as árvores da minha história”, no Parque Natural Municipal da Mata Atlântica.

A programação contou com exposição de produtos locais, piquenique, trilha guiada, plantio de árvores, apresentações culturais, concurso de cucas e a divulgação dos resultados da iniciativa de planejamento participativo para o futuro centro turístico da cidade.

Durante o encontro, também foram apresentados os resultados da proposta pedagógica “Futuro Centro Turístico de Atalanta – Planejamento Participativo”, envolvendo estudantes do município. Os alunos foram desafiados a imaginar e ilustrar, por meio de desenhos originais, como seria a paisagem ideal do centro de turismo, cultura, arte, meio ambiente e convivência comunitária da cidade. Os autores dos trabalhos ‘destaque’ receberam kits de produtos e certificados e todos os participantes foram reconhecidos com brindes.

Em entrevista para a prefeitura, Edegold Schäffer, Coordenador Geral do Viveiro da Apremavi, relata que o evento reflete o objetivo do Parque Mata Atlântica: era o nosso sonho há 25 anos, quando viemos aqui e vimos o potencial desse espaço. Sonhávamos em fazer do Parque o cartão postal de Atalanta. Hoje são milhares de pessoas que passam aqui todos os anos. O parque requer mais infraestrutura, mas aos poucos o poder público vem dando a atenção que ele merece.”

Cláudio Volnei Sens, prefeito de Atalanta, destacou a relevância da iniciativa: é muito gratificante quando o povo aparece em um evento como esse para desfrutar desse lugar maravilhoso. É um dia muito importante e diferente, que atraiu não só moradores locais, mas também pessoas de fora. Além disso, essa festa nos mostrou como a nossa culinária é ótima e movimentou a cidade.”

Já a Secretária de Turismo e Meio Ambiente, Vilma Krause, ressaltou o papel das parcerias: “é uma iniciativa da Secretaria de Turismo e Meio Ambiente juntamente com a Apremavi. As pessoas estão aderindo à ideia, foi um dia grandioso.”

Parque Mata Atlântica reúne moradores e visitantes em um dia de integração entre cultura e meio ambiente

Registros do 1° Viver Atalanta no Parque Natural Municipal da Mata Atlântica no dia 27 de setembro. Fotos: Carolina Schäffer e Miriam Prochnow

Autora: Thamara Santos de Almeida.
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto.
Foto de capa: Carolina Schäffer.

CONAMA estabelece novas regras para a supressão de vegetação nativa

CONAMA estabelece novas regras para a supressão de vegetação nativa

CONAMA estabelece novas regras para a supressão de vegetação nativa

Publicada no Diário Oficial da União no dia 16 de setembro de 2025, a Resolução nº 510 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) dispõe sobre novas regras para emissão de Autorizações de Supressão de Vegetação (ASV) em imóveis rurais.

A resolução define que toda autorização para supressão de vegetação só poderá ser emitida mediante inscrição ativa no Cadastro Ambiental Rural (CAR), sem pendências ou suspensões, e com a devida comprovação de regularidade quanto à Reserva Legal e às Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Outro ponto é a exigência de publicidade ativa: todas as autorizações emitidas deverão ser disponibilizadas em formato digital e com georreferenciamento, integradas ao Sistema Nacional de Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor), gerido pelo Ibama. Órgãos estaduais e municipais deverão adequar seus sistemas para assegurar o acesso público imediato às informações.

Responsabilidade dos órgãos ambientais

A resolução determina que cada autorização contenha dados detalhados, como:

  • Nome e CPF/CNPJ do proprietário ou possuidor;

  • Área autorizada para supressão, em hectares e percentual;

  • Caracterização da vegetação e bioma;

  • Inventário florestal e volume de aproveitamento de madeira, quando aplicável.

Os órgãos ambientais deverão publicar relatórios anuais até 31 de março, com informações consolidadas sobre as áreas autorizadas, efetivamente suprimidas e ainda pendentes de execução, discriminadas por estado, município, bioma e fitofisionomia.

Participação de municípios

A resolução também permite que órgãos ambientais municipais emitam autorizações em casos de impacto local em áreas urbanas ou de expansão urbana consolidada, desde que cumpram critérios como capacidade técnica, existência de conselho de meio ambiente e integração ao Sinaflor. Já no caso de atividades agropecuárias em propriedades rurais, a delegação para municípios dependerá de cooperação formal com os estados.

Com a nova norma, o CONAMA busca enfrentar práticas de supressão ilegal e reduzir brechas de falta de transparência, contribuindo assim para o cumprimento do Código Florestal. A integração de dados georreferenciados, a exigência de análise do CAR e a publicação de relatórios anuais ampliam o controle social sobre o processo, fortalecendo os mecanismos de governança ambiental”, relata Carolina Schäffer, vice-presidente da Apremavi, que esteve na reunião de aprovação da Resolução em Brasília (DF).

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto e Carolina Schäffer
Foto de capa: Arquivo Apremavi

Mutirão de plantio marca início da restauração na Fazenda Taquara da Apremavi

Mutirão de plantio marca início da restauração na Fazenda Taquara da Apremavi

Mutirão de plantio marca início da restauração na Fazenda Taquara da Apremavi

A Apremavi realizou o primeiro mutirão de plantio na Fazenda Taquara, localizada no município de Painel (SC), no coração da Floresta Ombrófila Mista. A atividade aconteceu no dia 15 de setembro e reuniu cerca de 20 pessoas, entre equipe técnica, estagiários da Apremavi e integrantes da GR Ambiental, que juntos deram início à restauração ecológica da mais nova área adquirida pela instituição por meio do projeto Conservador das Araucárias.

Foram plantadas 4 mil mudas de espécies nativas, um esforço que simboliza a implementação do processo de restauração. Ao todo, estão previstos o plantio de aproximadamente 300 mil mudas e a semeadura direta de pinhão – sementes da araucária – a partir do próximo inverno. A restauração deve acontecer em aproximadamente  900 hectares, utilizando diferentes metodologias, como o plantio conjugado com condução da regeneração natural, enriquecimento ecológico ativo e passivo, além da condução da regeneração natural de espécies nativas.

Biodiversidade e patrimônio natural

A região é considerada pelo Ministério do Meio Ambiente como área de extrema importância e prioridade de ação extremamente alta para a conservação da biodiversidade. Além disso, abriga espécies-bandeira como o papagaio-charão (Amazonia petrei) e o papagaio-do-peito-roxo (Amazona vinacea), ambos ameaçados de extinção e que têm grande relevância ecológica e cultural, sendo celebrados anualmente no Festival dos Papagaios, em Urupema.

Corredores ecológicos e integração regional

Outro aspecto estratégico da Fazenda Taquara é sua localização: ela está próxima de importantes áreas protegidas, como a RPPN Serra da Farofa (4.987 ha, de propriedade da Klabin) e a RPPN Papagaios de Altitude (36 ha, do Projeto Charão/Associação dos Amigos do Meio Ambiente – AMA). A área também se conecta a outras propriedades participantes do projeto Conservador das Araucárias, ampliando a perspectiva de formação de corredores ecológicos que reforçam a conectividade da paisagem.

Infraestrutura 

Além do plantio, as ações iniciais já incluíram a construção e reforma de 2 mil metros de cercas, de um total previsto de 12 mil metros, e a revitalização de aproximadamente 10 km de estradas internas, medidas fundamentais para a proteção das áreas em recuperação e para a logística dos trabalhos futuros.

“A restauração vai auxiliar na recuperação de uma área utilizada historicamente para criação de gado e agricultura. A ação é importante pela possibilidade de formação de corredores ecológicos e também pela coleta de sementes da Mata Atlântica para produção de mudas adaptadas à região”, comenta Edilaine Dick, coordenadora de projetos da Apremavi, sobre a importância da área.

Com esse primeiro plantio, a Fazenda Taquara inicia uma nova etapa de sua história: de um território marcado pelo uso agropecuário, passa a ser um espaço dedicado à conservação da biodiversidade, à restauração ecológica e à proteção da Mata Atlântica.

Mutirão de plantio, realizado na Fazenda Taquara da Apremavi no dia 15 de setembro de 2025

Mutirão de plantio, realizado na Fazenda Taquara da Apremavi no dia 15 de setembro. Fotos: Edilaine Dick, Wigold Schäffer e Weliton de Oliveira.

O Conservador das Araucárias

O projeto é fruto de uma parceria entre a Apremavi e a Tetra Pak que tem como meta a restauração de 7 mil hectares de Mata Atlântica, com foco na Floresta com Araucárias. Visa a restauração florestal com espécies nativas, atrelada à captura de carbono para mitigação das mudanças climáticas. Além disso, promove a adequação de propriedades rurais à legislação ambiental, a conservação de mananciais hídricos, do solo e da biodiversidade, bem como a melhoria da qualidade de vida da população. 

> Conheça o projeto

 

Autora: Thamara Santos de Almeida.
Revisão: Carolina Schäffer e Vitor L. Zanelatto
Foto de capa: Wigold Schäffer.

Guapuruvu: árvore de crescimento rápido favorita do joão-de-barro

Guapuruvu: árvore de crescimento rápido favorita do joão-de-barro

Guapuruvu: árvore de crescimento rápido favorita do joão-de-barro

O Guapuruvu (Schizolobium parahybae), integra a família das fabáceas e é uma das árvores nativas brasileiras com desenvolvimento rápido, podendo crescer até 3 metros por ano e chegar a 20 metros de altura quando adulta. Sua imponência e beleza tornam-no uma das espécies mais admiradas da flora brasileira, com flores grandes e vistosas de pétalas amarelas.

O nome científico da espécie tem origem em sua morfologia e história de descoberta: Schizolobium significa “legume duro”, enquanto parahybae refere-se ao Rio Paraíba, local da primeira observação da árvore.

 

Distribuição 

No Brasil, o Guapuruvu recebe diferentes nomes populares: na Bahia é chamado de pau-de-vintém, no Rio de Janeiro de fava-divina, no Rio Grande do Sul de guavirovo, e em Florianópolis é simplesmente a guapuruvu, considerada a mais bela árvore e um patrimônio cultural da população local.

O Guapuruvu ocorre naturalmente em diversos estados brasileiros, incluindo: Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. É característico da Floresta Ombrófila Densa da Mata Atlântica, principalmente nas planícies aluviais e nos inícios de encostas, onde se destaca no dossel superior. Também se adapta à vegetação secundária e é capaz de formar grupamentos densos em grandes clareiras.

 

Polinização e frutificação

É polinizado principalmente por abelhas. Sua floração ocorre entre setembro e dezembro no Paraná e outubro a dezembro em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de março a agosto no Paraná e de abril a agosto nos estados do Sul.

 

Aspectos ecológicos e cultivo

O Guapuruvu é uma espécie pioneira a secundária inicial, comum tanto em florestas primárias quanto em vegetação secundária, como capoeiras altas e clareiras florestais. Embora não seja muito longeva, cresce rapidamente em solos profundos, úmidos e férteis, preferencialmente de textura franca a argilosa, e é essencialmente heliófila, tolerando frio moderado apenas em microclimas protegidos.

A dispersão das sementes ocorre principalmente pelo vento (anemocoria) e pela gravidade (barocoria). O Guapuruvu pode ser plantado a pleno sol, em plantio puro ou misto, e apresenta brotação após cortes ou geadas. Em sistemas agroflorestais, é recomendado para cultivo junto a bananeiras ou mandioca, além de servir como proteção de culturas sensíveis a geadas, como o café.

 

Usos e importância

O Guapuruvu possui múltiplos usos:

  • Carboidratos: a goma das sementes contém galactomananas, utilizadas em diversos produtos;
  • Apícola: suas flores fornecem pólen e néctar, com alto teor de açúcar, originando mel fluído e perfumado;
  • Medicinal: a casca possui propriedades adstringentes na medicina popular.*
  • Paisagístico: muito utilizado em praças, parques, jardins e arborização urbana, com raízes profundas que causam poucos danos a calçamentos e muros. Recomenda-se distância mínima de 2 metros de construções;
  • Restauração ambiental: ideal para recuperação de matas ciliares, favorecendo a nidificação de aves como o joão-de-barro (Furnarius rufus).
Guapuruvu (Schizolobium parahyba)

Árvore, folhas, galhos e flores do Guapuruvu (Schizolobium parahyba). Fotos: Maurício Mercadante CC BY-NC-SA 2.0 via Flickr, Taters CC BY SA 2.0 via Flickr e João Maçaneiro CC BY-NC-SA 4.0 via Flora Digital UFSC

Guapuruvu

Nome científico: Schizolobium parahyba (Vell.) Blake

Família: Fabaceae

Coleta de sementes: quando os frutos começarem a cair espontaneamente e estiverem com coloração escura. Os frutos devem ser coletados do chão.

Fruto: coloração bege a marrom, quando completamente maduro e esverdeado quando imaturo com 8,5 a 16 cm de comprimento e 3 a 6 cm de largura.

Flor: : grandes, vistosas, de pétalas vivamente amarelas de até 30 cm de comprimento.

Crescimento da muda: rápido.

Germinação: alta.

Plantio: é recomendada também para restauração de mata ciliar em locais não sujeitos a inundação.

Status de conservação: MMA: Não listada – Portaria MMA 148/2022 | IUCN: Menos preocupante (Least Concern  – LN) (IUCN).

 

Referências consultadas:

Carvalho, P. E. R. (2019). Guapuruvu: Schizolobium parahybae.

Lorenzi, H. (2008). Árvores Brasileiras. Vol 1. 5ª edição. Plantarum.

Romão, M.V.V.; Mansano, V.F. Schizolobium in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB23143>. Acesso em: 17 set. 2025 

 

*Os dados sobre usos medicinais das espécies nativas são apenas para informação geral, onde os estudos foram feitos com propriedades isoladas em uma quantidade específica. O uso de medicamentos fitoterápicos deve ser seguido de orientações médicas.

 

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto
Foto de capa: Maurício Mercadante, CC BY-NC-SA 2.0 via Flickr

Programas Matas Legais e Sociais reúnem parceiros na Serra Catarinense

Programas Matas Legais e Sociais reúnem parceiros na Serra Catarinense

Programas Matas Legais e Sociais reúnem parceiros na Serra Catarinense

Realizado em 27 de agosto, o Seminário dos Programas Klabin Transforma Matas Legais e Matas Sociais reuniu agricultores e parceiros em Palmeira (SC). O encontro foi realizado pela Apremavi e pela Klabin, com apoio da Prefeitura de Palmeira e outros parceiros.

O Complexo Educacional Jussara Rodrigues da Cruz foi o espaço que recebeu cerca de 100 pessoas, dentre elas agricultores, estudantes e parceiros institucionais. Com uma programação diversa, o encontro buscou fortalecer o diálogo sobre conservação, educação ambiental, sustentabilidade e geração de renda no campo. “O objetivo do Seminário foi promover um encontro com o público-alvo atendido pelos Programas, que são os agricultores”, destacou Daiana Tânia Barth, coordenadora adjunta da Apremavi.

Para Mireli Moura Pitz Floriani, coordenadora de responsabilidade socioambiental da Klabin, a troca de experiências entre os participantes foi uma das metas alcançadas pelo encontro: “A cada Seminário surgem novas ideias de como trabalhar a conservação e a educação ambiental.”

Atividades estudantis

A manhã do dia 27 de agosto foi dedicada às atividades com estudantes do ensino básico, incluindo uma palestra sobre a fauna catarinense, suas ameaças e formas de monitoramento e identificação, realizada pela Sumatra Inteligência Ambiental. O público também acompanhou a apresentação teatral do CirculaDô sobre a história da araucária, desde a germinação até os desafios enfrentados pela árvore para garantir sua sobrevivência e visão geral das espécies que com ela interagem.

Feira e palestras técnicas

Na parte da tarde, após o credenciamento, a programação se voltou às atividades com agricultores e parceiros. Os seguintes temas foram destacados:

  • Sistemas Agroflorestais: Roberto Akitoshi Komatsu (IFSC Câmpus Lages) apresentou espécies frutíferas da Mata Atlântica, como butiá (Butia sp.) e goiaba-serrana (Feijoa sellowiana), e a importância de inserir as espécies no mercado de forma sustentável;

  • Apicultura Sustentável: Ariel Stefaniak (Sebrae) ressaltou a relevância das abelhas e da apicultura como atividade que contribui para o enfrentamento das mudanças climáticas;

  • Programas Klabin Transforma Matas Legais e Matas Sociais: Leandro Casanova (Apremavi) destacou as atividades realizadas nas duas décadas de história da parceria entre a Apremavi e a Klabin, explicando a relevância e impactos positivos junto aos ecossistemas e comunidades.

Paralelamente, uma feira trouxe iniciativas como o Projeto Arte Tramatusa, que reutiliza resíduos da indústria de papel e celulose para criar arte e a participação da Associação de Apicultores do Planalto Serrano Catarinense, de Otacílio Costa (SC), com a exposição e venda de mel. O evento foi finalizado com um “café com prosa”, promovendo a troca de experiências entre os participantes.

Seminário dos Programas Klabin Transforma Matas Legais e Matas Sociais foram realizados na Serra Catarinense em Palmeira (SC) no dia 27 de agosto

Palestras e teatro no Seminário dos Programas Klabin Transforma Matas Legais e Matas Sociais foram realizados na Serra Catarinense em Palmeira (SC) no dia 27 de agosto. Fotos: Thamara Santos de Almeida.

Autora: Thamara Santos de Almeida.
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto e Carolina Schäffer.
Foto de capa: Thamara Santos de Almeida.

Pagamento por Serviços Ambientais acelera a restauração da Mata Atlântica

Pagamento por Serviços Ambientais acelera a restauração da Mata Atlântica

Pagamento por Serviços Ambientais acelera a restauração da Mata Atlântica

Um estudo recente publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation mostrou que propriedades que contam com programas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) promovem uma maior recuperação da vegetação nativa.

O Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) é uma política pública que oferece incentivos financeiros a proprietários rurais e comunidades que adotam práticas de conservação e restauração em suas propriedades. A ideia é simples: quem conserva e restaura a natureza, garantindo benefícios coletivos como água limpa, regulação do clima, conservação da biodiversidade e solos mais férteis, recebe uma compensação por esse serviço prestado à sociedade.

A pesquisa avaliou o Projeto Conexão Mata Atlântica (PCMA), desenvolvido em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e mostrou que esses incentivos financeiros a produtores rurais influenciam o aumento das áreas de vegetação nativa nas propriedades, além de benefícios econômicos.

 

Mais floresta em propriedades rurais

Entre 2017 e 2022, propriedades participantes do PCMA registraram, em média, um ganho adicional de 1 hectare de vegetação nativa em comparação a áreas que não aderiram ao programa. Esse resultado reforça a chamada “adicionalidade”: ganhos ambientais que só acontecem por causa da política pública prevista no Código Florestal. No total, as áreas do programa mostraram taxas de regeneração significativamente superiores.

Enquanto a região como um todo apresentou tendência de degradação, os imóveis incluídos no esquema de uso múltiplo do PSA tiveram 7% mais áreas de alta qualidade e 10% menos áreas em degradação quando comparados a propriedades semelhantes que não participaram do programa.

 

Investimento com retorno ambiental

Além dos ganhos ambientais, o estudo mostra que o modelo de PSA é financeiramente competitivo. O custo médio para recuperar a vegetação através do PCMA foi mais baixo do que o valor praticado no mercado de restauração florestal, especialmente porque utilizou estratégias de regeneração natural assistida. Isso demonstra que políticas públicas de incentivo podem viabilizar a restauração em larga escala de forma mais acessível.

Com mais de mil propriedades envolvidas apenas em São Paulo, o PCMA se mostra um exemplo de como programas bem planejados podem gerar resultados mensuráveis e duradouros para os ecossistemas. Para os autores do estudo, ampliar e refinar iniciativas de PSA é crucial para enfrentar o desafio da restauração da Mata Atlântica e garantir a sustentabilidade das propriedades.

“O Brasil possui um grande déficit de cobertura vegetal natural que precisa ser superado para atingir a conformidade legal com o Código Florestal, para garantir que os proprietários rurais cumpram esse código, é necessário incorporar o planejamento do uso da terra juntamente com incentivos monetários”, relata o estudo.

O sucesso a longo prazo requer comprometimento contínuo dos formuladores de políticas, apoio financeiro e participação ativa dos proprietários de terras. Com a persistência do desmatamento e da degradação do solo, ampliar e refinar as estratégias de PSA não é mais uma opção, é uma necessidade.

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto e Carolina Schäffer
Foto de capa: Arquivo Apremavi

Apremavi acompanha seminário de Justiça Climática do CONAMA

Apremavi acompanha seminário de Justiça Climática do CONAMA

Apremavi acompanha seminário de Justiça Climática do CONAMA

Seminário sobre Justiça Climática e Racismo Ambiental foi realizado no âmbito do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), no dia 4 de setembro em Brasília. 

O encontro teve como objetivo produzir conhecimento sobre justiça climática, mapear necessidades de marcos regulatórios e políticas públicas e promover diálogo entre setores para alinhamento técnico e político em torno da proposta de resolução no âmbito do CONAMA.

Na abertura, o Secretário Executivo do CONAMA, João Paulo Ribeiro Capobianco, ressaltou o papel do Conselho no tema e a relevância do processo em curso: “A criação da Câmara Técnica de Justiça Climática foi um passo importantíssimo para o CONAMA, que tem, sim, a responsabilidade de debater sobre o assunto”. Capobianco sugere ainda que o Conselho avance nos diálogos e elabore uma moção sobre o tema.

A programação foi estruturada para oferecer visão ampla e integrada. Uma mesa com o Ministro Antonio Herman de Vasconcellos e Benjamin situou a justiça climática e o racismo ambiental no contexto brasileiro e internacional, destacando as responsabilidades do Estado na prevenção de danos, na reparação e na promoção de equidade. 

Em seguida, uma abordagem conceitual trouxe definições e princípios, evidenciando a centralidade de povos e comunidades tradicionais, populações periféricas e rurais, e o reconhecimento de perdas e danos, vulnerabilidades e salvaguardas para territórios impactados. 

Um bloco dedicado à base jurídica e institucional discutiu o papel do CONAMA na formulação de diretrizes, metas e padrões para ações de mitigação e adaptação, bem como a integração com planos estaduais e municipais, mecanismos de governança colaborativa e transparência de dados e indicadores.

As vozes dos territórios tiveram espaço para relatar experiências com eventos extremos, conflitos ambientais, insegurança hídrica e alimentar, e exposições desproporcionais a riscos, reforçando a urgência de soluções estruturantes e financiamento acessível. Nos encaminhamentos, emergiu consenso sobre a importância de uma política nacional de justiça climática com critérios de priorização territorial, participação social qualificada e consulta livre, prévia e informada, além de um arranjo federativo que fortaleça capacidades locais, estabeleça metas claras e assegure monitoramento e responsabilização.

Carolina Schaffer, vice-presidente da Apremavi, que esteve presente no evento comenta sobre a transversalidade da temática: “a justiça climática deve ser discutida de forma transversal às políticas ambientais e passa pelos debates de adaptação e mitigação, com priorização de soluções baseadas na natureza, como a restauração ecológica”.

O seminário teve transmissão ao vivo e pode ser acessado aqui:

Autora: Carolina Schäffer.
Revisão: Thamara S. de Almeida.
Foto de capa: Carolina Schäffer.

Campos de Altitude seguem ameaçados e no centro de disputa judicial

Campos de Altitude seguem ameaçados e no centro de disputa judicial

Campos de Altitude seguem ameaçados e no centro de disputa judicial

Biodiversidade, proteção dos recursos hídricos, beleza cênica, cultura e potencial para o turismo sustentável. Os Campos de Altitude, fitofisionomia única da Mata Atlântica, representam uma inestimável riqueza natural. Mesmo assim, continuam sob ameaça constante, agora intensificada por retrocessos legislativos em Santa Catarina.

Retrocesso na legislação estadual 

Embora a legislação federal brasileira reconheça e proteja os Campos de Altitude como parte da Mata Atlântica, a revisão do Código Estadual do Meio Ambiente de Santa Catarina, em 2022, reduziu drasticamente essa proteção. A nova redação passou a considerar Campos de Altitude apenas as áreas acima de 1.500 metros de altitude, ignorando décadas de definições científicas.

Segundo a Procuradoria Geral da República, essa restrição trazida pela lei de Santa Catarina é inconstitucional, pois contraria normas federais como a Lei da Mata Atlântica (Lei nº 11.428/2006) e a Resolução CONAMA nº 10/1993, que incluem vegetações campestres situadas em altitudes variáveis, bem abaixo do limite imposto pelo estado. A própria Resolução CONAMA nº 423/2010, baseada no Mapa de Vegetação do Brasil (IBGE, 1988) e no Mapa da Área de Aplicação da Lei da Mata Atlântica (IBGE, 2008), reconhece que os Campos de Altitude ocorrem em ambientes montanos e altomontanos, a partir de 400 metros de altitude em determinadas regiões do país.

Com a mudança trazida pela Lei de Santa Catarina, 96% dos campos naturais catarinenses perderam proteção legal, restando apenas 3,8% do território antes reconhecido. O impacto é direto: a abertura de brechas para a conversão desses ecossistemas em monocultivos agrícolas e de espécies florestais exóticas, como o pinus e o eucalipto, prática já denunciada por cientistas e organizações ambientais.

Conversão acelerada e alerta científico

Em julho de 2025, uma carta publicada na revista Science alertou para o risco que essa interpretação estadual representa para um dos ecossistemas mais ricos e ameaçados do Brasil. Segundo o texto, os Campos de Altitude do sul do país abrigam 1.620 espécies catalogadas de flora, sendo até 25% endêmicas, e fauna singular.

Apesar da importância desse ecossistema, agropecuaristas e empresas do setor florestal têm se aproveitado da definição restritiva do Código Estadual para expandir monocultivos agrícolas e plantações florestais sobre áreas de campos naturais em Santa Catarina, indevidamente desprotegidas pela legislação estadual. Ainda segundo a carta, entre 2008 e 2023, quase 50 mil hectares de campos foram convertidos. Essa conversão de Campos de Altitude gerou autuações do Ibama, as quais estão sob contestação na Justiça Federal e recurso ao Supremo Tribunal Federal, que suspendeu temporariamente as penalidades até decisão sobre a legislação estadual. O Prof. João de Deus Medeiros, um dos coautores da carta publicada pela Science, comenta: “Na publicação fica ressaltada a importância do ecossistema de Campo de Altitude e a ausência de qualquer embasamento técnico-científico para a restrição da sua ocorrência aos terrenos com altitude superior a 1.500 metros, como determinado na lei catarinense”.

Ação Direta de Inconstitucionalidade

A Justiça Federal, em decisão liminar, suspendeu as autuações e sanções do Ibama nas áreas de Campo de Altitude de Santa Catarina, entendendo como válidos os dispositivos da lei catarinense (Lei nº 14.765/2009), que restringem a ocorrência dos Campos de Altitude a áreas com altitude superior a 1.500 metros. O Ibama recorreu à decisão no âmbito do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), tendo o relator da matéria proferido voto que retira a efetividade dos dispositivos da lei estadual.

Entretanto, inicialmente por um pedido de vistas, e posteriormente por decisão cautelar do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, a pedido do Estado de Santa Catarina, restaram suspensos todos os processos que discutam dispositivos da norma catarinense que trata da vegetação dos Campos de Altitude. Essa decisão cautelar do STF, emitida às vésperas da retomada da análise do processo por parte do TRF4, decorre do ingresso da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.811/2025, ajuizada pelo Procurador Geral da República, e foi referendada pelo pleno do STF em 22 de agosto de 2025. A suspensão foi determinada, segundo o Ministro do STF, para evitar que decisões judiciais sejam proferidas antes do posicionamento conclusivo do STF sobre o tema.

Linha do tempo resumida dos avanços e retrocessos dos Campos de Altitude. Foto: Wigold Schäffer

Linha do tempo resumida dos avanços e retrocessos dos Campos de Altitude. Foto: Wigold Schäffer

Informações distorcidas

Após o ingresso da ADI, diversos artigos de opinião divulgaram informações distorcidas na imprensa, abrangendo dados falsos sobre as perdas do PIB Estadual e inviabilidade econômica caso prevaleça a aplicabilidade da Lei Nacional sobre o Código Ambiental de Santa Catarina. 

Entretanto, na contramão das falácias, o que prevalece é a veracidade dos fatos científicos: segundo o IBGE, os Campos de Altitude originais ocupavam 11,6% da área de Santa Catarina (11.122 km²). Em 2010, os remanescentes já haviam caído para 1,16%. Hoje, estima-se que apenas 0,64% do território catarinense ainda conserve vegetação nativa desse ecossistema, conforme artigo publicado por João de Deus Medeiros no site do Conselho Regional de Biologia de Santa Catarina.

Esses números ressaltam a importância da conservação dos remanescentes dos Campos de Altitude para evitar a extinção do ecossistema e de suas espécies associadas.

Um compromisso estratégico

Os poucos remanescentes dos Campos de Altitude estão apenas em parte protegidos em Unidades de Conservação ou em áreas pouco favoráveis a outras atividades econômicas. Além disso, práticas como a pecuária extensiva e o turismo sustentável são compatíveis com a conservação, mostrando que a proteção não inviabiliza usos econômicos responsáveis. Proteger os poucos remanescentes que ainda temos precisa ser visto como compromisso estratégico.

A Apremavi corrobora o pedido feito pelos especialistas na carta divulgada pela Science de que o Supremo Tribunal Federal reconheça a inconstitucionalidade da restrição estadual e restabeleça a proteção integral dos Campos de Altitude conforme a legislação federal. Organizações independentes de certificação florestal também são chamadas a revisar seus protocolos para garantir que empresas respeitem, de fato, a legislação ambiental mais protetiva. 

A conservação dos Campos de Altitude é urgente e depende de ação coordenada entre o Judiciário, órgãos ambientais e a sociedade civil para evitar a perda irreversível da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos.

 

Coxilha Rica

Coxilha Rica (Lages/SC), uma das áreas de Campos de Altitude, convertidas de forma ilegal e que estão no centro da disputa judicial. Foto: Wigold Schäffer.

Autora: Thamara Santos de Almeida com informações obtidas em artigos publicados por João de Deus Medeiros.
Revisão: Carolina Schäffer e Wigold Schäffer.
Foto de capa: Wigold Schäffer.

Canafístula: da restauração ecológica até a arborização urbana

Canafístula: da restauração ecológica até a arborização urbana

Canafístula: da restauração ecológica até a arborização urbana

A canafístula (Peltophorum dubium), também conhecida como angico-amarelo, é uma árvore nativa pertencente à família Fabaceae (leguminosas). Em tupi-guarani, é chamada de ibira-puita-guassú, que significa “madeira-vermelha-grande”.

Distribuição e habitat

A espécie apresenta ampla ocorrência no território brasileiro, do estado da Bahia ao Rio Grande do Sul, e também está presente em países vizinhos, como Argentina, Paraguai e Uruguai. No Brasil, pode ser encontrada em diversos estados, incluindo Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. 

A canafístula é comumente encontrada em Floresta Estacional Semidecidual, sendo classificada como espécie secundária inicial, com características pioneiras, capaz de colonizar áreas abertas ou alteradas.

Características ecológicas

A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, principalmente barocórica (por gravidade), e anemocórica, com dispersão lenta pelo vento. Suas sementes permanecem no banco de sementes do solo, contribuindo para a regeneração natural da espécie.

A árvore apresenta tolerância a baixas temperaturas e geadas, além de resistir a ventos fortes sem quebra de galhos ou tombamento. Recomenda-se o plantio a pleno sol e em áreas amplas, com bom crescimento.

Usos e importância
  • Apícola: flores melíferas, com produção de néctar, embora haja relatos de possível efeito adverso às abelhas;
  • Medicinal: raízes, folhas, flores e frutos são usados na medicina popular; a casca do caule é empregada por etnias indígenas do Paraná e Santa Catarina como anticoncepcional*;
  • Ornamentação: amplamente cultivada em avenidas, praças, rodovias, parques e jardins, devido ao grande porte e à resistência de seus ramos. Não é indicada para arborização urbana de pequeno porte;
  • Restauração ecológica: recomendada para restauração de mata ciliar, recuperação de áreas alteradas e restauração de encostas. Não tolera terrenos encharcados, mas suporta inundações periódicas.
Muda de canafístula

Flores, árvore, sementes e folhas de canafístula. Fotos: Arquivo Apremavi, Maurício Mercadante e João Paulo de Maçaneiro.

Canafístula

Nome científico: Peltophorum dubium (Spreng.) Taub.
Família: Fabaceae.
Coleta de sementes: coleta realizada diretamente da árvore. Antes da semeadura as sementes devem passar por processo de quebra de dormência através de água fervente.
Época de coleta de sementes: abril a setembro.
Fruto: seco indeiscente.
Flor: amarela, bem visível.
Crescimento da muda: rápido.
Germinação: normal.
Plantio: mata ciliar, área aberta, solo degradado.
Status de conservação: MMA: Não listada – Portaria MMA 148/2022 | IUCN: Menos preocupante (Least Concern  – LN) (IUCN).

*Os dados sobre usos medicinais das espécies nativas são apenas para informação geral, onde os estudos foram feitos com propriedades isoladas em uma quantidade específica. O uso de medicamentos fitoterápicos deve ser seguido de orientações médicas

Referências consultadas:

Carvalho, P. (2003). Canafístula: Peltophorum dubium.

Prochnow, M. (Org). (2007). No jardim das florestas. Rio do Sul: Apremavi. 

Silva, T.S.; Rando, J.G.; Carvalho, D.A.S. Peltophorum in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB83567>. Acesso em: 29 ago. 2025 

Autora: Thamara Santos de Almeida
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto
Foto de capa: Antonio Cruz/Agência Brasil, CC BY 3.0 BR via Wikimedia Commons

Revista científica publica levantamento da flora do Parque Mata Atlântica

Revista científica publica levantamento da flora do Parque Mata Atlântica

Revista científica publica levantamento da flora do Parque Mata Atlântica

A terceira edição da Revista Biodiversidade apresenta novos estudos científicos sobre a fauna e flora no Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Dois artigos da publicação são os levantamentos realizados pela Apremavi no Parque Natural Municipal da Mata Atlântica (PNMMA), em Atalanta (SC), que revelam a expressiva diversidade de plantas existentes na Unidade de Conservação com apenas 54,2 hectares.

Co-organizada pela Associação Ambientalista Pimentão, Ministério Público de Santa Catarina e editora do Centro Universitário para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí (Unidavi), a publicação reúne pesquisas realizadas nas cidades de Atalanta, Rio do Oeste e Rio do Sul. O Volume 3 da revista traz artigos sobre a avifauna do Alto Vale, o primeiro registro documentado da espécie Bubo virgianus, e levantamentos florísticos, fitossociológicos, epífitos e rupícolas do PNMMA.

Levantamento de flora do Parque Mata Atlântica

Considerado um importante fragmento para a conservação da biodiversidade, o estudo realizado no Parque Mata Atlântica revelou que 144 espécies arbóreo-arbustivas ocorrem na área, distribuídas em 49 famílias botânicas. O estudo registrou oito espécies ameaçadas de extinção segundo a Lista Oficial das Espécies Brasileiras Ameaçadas de Extinção:

“Os levantamentos reforçam a relevância do PNMMA como abrigo de espécies tanto da Floresta Ombrófila Mista quanto da Floresta Ombrófila Densa, e mostram que mesmo Unidades de Conservação relativamente pequenas exercem papel crucial na conservação da biodiversidade”, explica Marluci Pozzan, Coordenadora de Projetos da Apremavi e pesquisadora envolvida no estudo.

Ela ainda comenta que as organizações da sociedade civil têm papel relevante na geração da ciência, ao integrar conhecimento científico, inovação tecnológica e práticas de campo. “Através de parcerias com instituições de pesquisa, esses dados são transformados em publicações científicas. Essa prática tem contribuído para a geração de conhecimento científico sobre o ecossistema, especialmente no âmbito regional.”

 

Levantamento de Epífitas e Rupícolas

Outro destaque é o primeiro levantamento de epífitas e rupícolas, plantas que vivem sobre outras e sobre paredes, muros, rochedos ou afloramentos rochosos, respectivamente. Foram registradas 37 espécies, pertencentes a 18 famílias botânicas. Sete dessas espécies são endêmicas da Mata Atlântica, ou seja, só ocorrem nesse bioma.

Entre elas, a emblemática rainha-do-abismo (Sinningia macropoda), que possui poucos registros em Santa Catarina. No Parque, a espécie ocorre em abundância nos paredões rochosos, transformando a paisagem durante a floração com suas flores vermelhas.

“Encontramos uma diversidade significativa em uma área relativamente pequena. Isso indica que o Parque abriga muito mais espécies do que o levantamento inicial conseguiu registrar”, ressalta Gabriela Goebel, Técnica Ambiental da Apremavi e pesquisadora.

“Levantamentos de flora são importantes para identificarmos as espécies presentes na região e ampliar nosso conhecimento sobre a distribuição dessas espécies. Esses dados são importantes para identificação de espécies raras e ameaçadas de extinção, e auxiliam na elaboração de ações de conservação”, relata Gabriela sobre a importância da publicação.

rainha-do-abismo (Sinningia macropoda) uma das espécies registradas no Parque Mata Atlântica

Algumas das espécies registradas no Parque durante o levantamento. Fotos: Wigold Schäffer e Arquivo Apremavi.

Cuidando da Mata Atlântica

Os estudos são resultado da revisão do Plano de Manejo do Parque por meio do projeto “Cuidando da Mata Atlântica”, executado entre 2023 e 2024 pela Apremavi em parceria com a The Vita Coco Company. As ações contemplaram o monitoramento da biodiversidade, com ênfase nos mamíferos; o desenvolvimento de atividades de Educação Ambiental junto às escolas da região; e a elaboração de um mapa com proposta para a criação de um corredor ecológico em Atalanta, conectando o Parque Mata Atlântica a outros fragmentos florestais do município.

 

A Revista Biodiversidade

É uma publicação periódica dos trabalhos científicos desenvolvidos no Alto Vale do Itajaí. A Associação Ambientalista Pimentão e a Unidavi se uniram para divulgar os resultados das pesquisas da fauna e da flora da região. O projeto conta com o apoio do Ministério Público do Alto Vale do Itajaí, e tem como objetivo promover a divulgação do conhecimento nos vinte e oito municípios.

> Confira a íntegra do Volume 3 da Revista da Biodiversidade.

 

Volume 3 da Revista da Biodiversidade

Autora: Thamara Santos de Almeida.
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto.
Foto de capa: © Wigold Schäffer.

Visitantes vivenciam a restauração e a conservação na Apremavi

Visitantes vivenciam a restauração e a conservação na Apremavi

Visitantes vivenciam a restauração e a conservação na Apremavi

Visitar a Apremavi é transformar conhecimento em experiência prática. Entre trilhas que revelam áreas em processo de restauração, nascentes conservadas e o movimento intenso do viveiro de mudas, estudantes e visitantes entram em contato direto com a restauração e a conservação da Mata Atlântica. 

Durante o primeiro semestre de 2025, o Centro Ambiental e o Viveiro Jardim das Florestas da Apremavi receberam 338 visitantes, entre crianças, adolescentes e adultos. As visitas foram realizadas principalmente por escolas e universidades do Alto Vale do Itajaí (SC), que buscam aprofundar o conhecimento sobre a produção de mudas e a importância da restauração ecológica. Entre os grupos que estiveram presentes, destacam-se o Instituto Federal Catarinense (IFC) – Campus Rio do Sul, a UFSC de Curitibanos e o Centro Educacional Giácomo Zommer de Mirim Doce.

 

Experiências que marcam

Cada visita traz aprendizados únicos, mas algumas se destacaram no primeiro semestre:

  • Crianças entre 8 e 12 anos, cheias de curiosidade e interesse, exploraram com encantamento a floresta em recuperação;

  • Adultos e universitários aprofundam conversas e reflexões, conectando o conhecimento acadêmico às práticas de conservação.

“É muito positivo quando recebemos visitantes que já conhecem as espécies nativas e contribuem com informações, ou quando demonstram interesse pelas Unidades de Conservação que fazem parte das visitas, como a RPPN Serra do Pitoco e o Parque Natural Municipal da Mata Atlântica. Também há bastante atenção voltada ao Museu do Parque, com seus itens históricos”, destaca Caroline Heidemann, Técnica Ambiental da Apremavi. 

 

Principais atrativos das visitas

> Conheça os principais atrativos

Visitantes vivenciam a restauração e a conservação na Apremavi no primeiro semestre 2025

Visitantes vivenciam os diferentes atrativos da vista, desde o Viveiro Jardim das Florestas e a Trilha da Restauração da Apremavi até o Parque Natural Municipal da Mata Atlântica. Fotos: Arquivo Apremavi e Thamara Santos de Almeida.

O Programa de Visitas Guiadas segue com agenda aberta

O Programa de Visitas Guiadas é uma iniciativa institucional da Apremavi que aproxima a comunidade das práticas de conservação. Para grupos com mais de cinco pessoas, é necessário agendamento prévio.

> Agende a sua visita e venha viver essa experiência

 

Autoras: Thamara Santos de Almeida e Caroline Heidemann.
Foto de capa:  Visita no Viveiro Jardim das Florestas © Arquivo Apremavi.

Lula barra retrocessos no PL da Devastação, mas mantém pontos críticos

Lula barra retrocessos no PL da Devastação, mas mantém pontos críticos

Lula barra retrocessos no PL da Devastação, mas mantém pontos críticos

O presidente Lula vetou partes da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, reduzindo a lista de retrocessos previstos no PL 2.159/2021 e atendendo em parte as demandas de especialistas e organizações socioambientais. Apesar de ter retirado dispositivos considerados críticos, a espinha dorsal do texto aprovado pelo Legislativo, apelidado por ambientalistas de “PL da Devastação”, permanece em vigor.

Desde que começou a tramitar na Câmara dos Deputados, em 2021, a proposta foi classificada por pesquisadores, Ministério Público Federal, movimentos sociais e entidades ambientais como o maior retrocesso na política ambiental brasileira em mais de quatro décadas. As principais críticas apontavam risco de flexibilização extrema dos procedimentos de licenciamento ambiental, enfraquecendo proteções a biomas, comunidades tradicionais e áreas de risco ambiental.

 

Vetos

Dos quase 400 dispositivos aprovados pelo Congresso, 63 foram vetados, sendo 26 integralmente excluídos. Entre os pontos da lei derrubados estão:

  • A possibilidade de autolicenciamento por meio da Licença por Adesão e Compromisso (LAC) para empreendimentos de médio potencial poluidor, como mineradoras;
  • Alterações na Lei da Mata Atlântica, que abririam brechas para desmatamento em municípios sem estrutura técnica ou plano diretor;
  • A exclusão de Terras indígenas e Territórios Quilombolas das análises de licenciamento caso não estivessem com regularização fundiária concluída;
  • Dispositivos que enfraquecem a análise de impactos indiretos e restringem a atuação de órgãos gestores de Unidades de Conservação.

Também entrou para a lista de artigos vetados aquele que previa a revogação de dispositivos da Lei da Mata Atlântica (Lei 11.428/2006). “O artigo 66, que garante a integridade da Lei da Mata Atlântica, é uma vitória da sociedade”, destacou a Fundação SOS Mata Atlântica em nota, lembrando que a legislação foi sancionada ainda no primeiro governo Lula e é considerada um marco na proteção do bioma mais ameaçado do país.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, também destacou: “A integridade do licenciamento ambiental foi assegurada. Vamos manter o diálogo com o Congresso Nacional para que os vetos sejam mantidos.”

> Leia os vetos ao PL 2.159/2021 e justificativas

 

Licença Especial

Apesar dos vetos, Lula preservou mecanismos que preocupam especialistas. Entre eles, a Licença Ambiental Especial (LAE), criada de última hora pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil). Na versão aprovada pelo Legislativo, a LAE permitiria conceder todas as licenças em uma única etapa, inclusive para empreendimentos de alto impacto. Lula derrubou a forma mais radical, mas manteve o instrumento com prazo acelerado de até 12 meses, por meio de medida provisória, para empreendimentos considerados “estratégicos” pelo Conselho de Governo, critério visto por ambientalistas como suscetível a pressões políticas.

Outro ponto preservado é a maior autonomia para estados e municípios definirem parâmetros de licenciamento, embora dentro de diretrizes nacionais. Críticos alertam que a descentralização excessiva, aliada à pressão local, pode favorecer flexibilizações e autorizações apressadas.

 

Próximos passos

Agora a última palavra sobre os vetos cabe ao Congresso. Não há prazo para essa análise, mas a expectativa de ambientalistas é que haja forte pressão para derrubá-los. Pelo histórico, a mobilização social será determinante para evitar que os dispositivos mais polêmicos voltem ao texto.

Com a sanção, o Brasil entra na contagem regressiva para a COP30, que será sediada em Belém (PA) em 2025, com o desafio de conciliar desenvolvimento econômico e meio ambiente diante de um licenciamento mais flexível.

Autora: Thamara Santos de Almeida, com informações da SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e ClimaInfo.
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto.
Foto de capa: Catástrofe socioambiental provocada pelo rompimento de barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG) (CC) Vinícius Mendonça/Ibama.

Mico-leão-da-cara-preta: primata ameaçado da Mata Atlântica

Mico-leão-da-cara-preta: primata ameaçado da Mata Atlântica

Mico-leão-da-cara-preta: primata ameaçado da Mata Atlântica

Descoberto há pouco mais de três décadas, o mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara) é um dos primatas mais ameaçados de extinção do Brasil.

Em 1990, um pequeno primata de face escura e juba dourada surpreendeu pesquisadores ao ser registrado na Ilha de Superagui, no litoral norte do Paraná. O mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara), também chamado de mico-caiçara, é um dos quatro micos-leões conhecidos, com a distribuição geográfica mais restrita. Desde então, a ciência e iniciativas de conservação buscam evitar sua extinção.

“É uma espécie muito especial, endêmica do coração da Grande Reserva Mata Atlântica”, explica Elenise Angelotti Bastos Sipinski, coordenadora do programa de fauna da SPVS. em entrevista à Apremavi: “a maior parte da sua área de distribuição está em duas unidades de conservação de proteção integral, o PARNA do Superagui e o PE do Lagamar de Cananéia, desde a década de 1950, quando foi aberto o canal do Varadouro.”

 

Uma vida entre florestas maduras e alagadas

Diferentemente de espécies do mesmo grupo que vivem mais ao norte, o mico-leão-da-cara-preta está adaptado a florestas de planície, em regiões de baixa altitude (até 40 metros), muitas vezes alagadas, e evita áreas de floresta montana e manguezais. É encontrado tanto em florestas maduras quanto em áreas em regeneração, desde que apresentem vegetação densa e conectividade entre fragmentos.

Essa restrição ecológica e a baixa tolerância a perturbações no ambiente tornam a espécie extremamente vulnerável à fragmentação de habitats. A construção do canal que separa a Ilha de Superagui do continente é um exemplo de perda de conectividade dos ambientes: além de alterar a dinâmica hídrica local, isolou geneticamente as populações insulares das continentais.

 

Importância ecológica

A espécie é essencial para a floresta. “Ele é uma espécie dispersora, alimentando-se de diversas frutas e ajudando a espalhar sementes enquanto se desloca entre as árvores”, explica Elenise. “É um animal extremamente ativo, passa o dia pulando de árvore em árvore, e nesse movimento, contribui para a regeneração natural da floresta.”

A conservação do mico é, portanto, também a conservação das dinâmicas florestais naturais e da biodiversidade que delas dependem.

 

População crítica

Estudos populacionais indicam que foram registrados 400 indivíduos na natureza, número preocupante para a espécie, segundo a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS). Isso resultou na classificação da espécie como “Em Perigo” na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas e na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

A perda contínua de habitat na porção continental onde a espécie ocorre e o isolamento das populações remanescentes são os principais fatores de risco. Isso reforça a importância da conectividade entre áreas protegidas e da restauração ecológica em regiões-chave para a sobrevivência da espécie.

 

A resposta: ciência, articulação e comunidades

Diante da ameaça à espécie, a SPVS coordena desde 2018 o Programa de Conservação e Monitoramento do mico-leão-da-cara-preta, com atuação no Paraná e, em parceria com a Fundação Florestal, também em São Paulo. As ações acontecem no contexto da Grande Reserva Mata Atlântica e são integradas ao Plano de Ação Nacional (PAN) para os Primatas da Mata Atlântica e a preguiça-de-coleira, coordenado pelo ICMBio.

Para Elenise Sipinski, a principal lição do programa até hoje é clara: a conservação não se faz sozinho. “É um grupo grande de diferentes instituições, como o ICMBio, a Fundação Florestal, universidades, a Fiocruz, o IPEC, além da SPVS. São pesquisadores, gestores e comunidades que se reúnem para buscar as melhores estratégias de conservação.”

Além da ciência, o diálogo com as comunidades locais é parte vital da estratégia. “Desde o início, participamos de reuniões nos conselhos das unidades de conservação, comunicando e ouvindo os moradores. Hoje, temos três pessoas da própria comunidade trabalhando no programa, duas no monitoramento e uma na educação ambiental”, conta a pesquisadora. Uma das funcionárias, por exemplo, é bióloga nascida e criada em Superagui.

Esse envolvimento tem sido fortalecido com pesquisas de percepção social, para entender como as pessoas enxergam o mico, o parque e o projeto. “Esses dados embasam nossas ações de educação ambiental e relacionamento comunitário”, reforça Elenise. “É fundamental sermos transparentes, dialogar, dar oportunidade para que as pessoas atuem conosco e vejam o valor da conservação também em sua realidade.”

 

 

O que precisa ser feito agora?

A atualização da estimativa populacional é uma das ações mais urgentes. O último levantamento foi feito há mais de 10 anos. “Hoje realizamos um monitoramento mensal em trilhas na Ilha de Superagui. A cada avistamento, anotamos número de indivíduos, composição dos grupos, presença de filhotes, sexo, comportamento. Isso vai permitir calcular uma estimativa atual e mais precisa”, explica.

Além disso, fortalecer a gestão das Unidades de Conservação é prioridade. Elenise reforça que é necessário que os parques tenham gestão voltada à biodiversidade, engajamento comunitário e fiscalização efetiva, garantindo que a proteção no papel se traduza em proteção real no território.

 

Esperança em movimento

Mesmo diante de tantos desafios, a pesquisadora acredita que ainda é possível reverter o cenário de risco da espécie. “Acredito que as ações do programa são fundamentais para que a espécie se mantenha na natureza. Se tivermos um programa fortalecido, Unidades de Conservação bem geridas e o envolvimento das comunidades, podemos sim garantir um futuro para o mico-leão-da-cara-preta.”

Mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara)

Mico-leão-da-cara-preta em seu habitat natural. Fotos: Gabriel Marchi e Paulo Valadão, CC BY-NC 4.0 via INaturalist

Mico-leão-da-cara-preta

Nome científico: Leontopithecus caissara.
Família: Callitrichidae.
Habitat: endêmico da Mata Atlântica.
Dieta: insetívoro e frugívoro.
Peso: Em média, indivíduos adultos pesam entre 648,89 gramas (fêmea) e 685,38 gramas (macho).
Hábito de vida: espécie diurna. Vive em grupos familiares e possui hábitos territorialistas.
Distribuição: litoral do Paraná e de São Paulo.
Ameaças: construção do canal que separa o continente da ilha de Superagui, promovendo desconexão de hábitat, perda e fragmentação de habitat.
Status de conservação: Em Perigo, tanto pela União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN) quanto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

 

Referências consultadas:

LUDWIG, G.; NASCIMENTO, A. T. A.; MIRANDA, J. M. D.; MARTINS, M.; JERUSALINSKY, L.; MITTERMEIER, R. A. Leontopithecus caissara. The IUCN Red List of Threatened Species, [S.l.], 2021. e.T11503A206547044. Disponível em: https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2021-3.RLTS.T11503A206547044.en. Acesso em: 24 jul. 2025.

LUDWIG, G. et al. Leontopithecus caissara Lorini & Persson, 1990. Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade – SALVE, 2025. Disponível em: https://salve.icmbio.gov.br. DOI: 10.37002/salve.ficha.31034.2. Acesso em: 24 jul. 2025.

NASCIMENTO, A. T. A. Ecologia e conservação do mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara) na região do Ariri, Cananeia, São Paulo. 2014.

 

 

Autora: Thamara Santos de Almeida.
Revisão: Vitor Lauro Zanelatto.
Foto de capa: (CC) Gabriel Marchi CC BY-NC 4.0, via INaturalist.

Soberania alimentar e economia solidária: Xica da Silva

Soberania alimentar e economia solidária: Xica da Silva

Soberania alimentar e economia solidária: Xica da Silva

“A economia solidária é a porta de entrada e também a saída para quem quer uma vida melhor. Um outro mundo é possível”

Francisca Maria da Silva, a Xica da Silva, é chefe de cozinha e ativista pela economia solidária. Natural de Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte, ela atua em movimentos sociais, com foco no enfrentamento à violência contra a mulher, soberania alimentar e no direito à terra.  Ainda jovem, ela trabalhou em cultivos de cana-de-açúcar, café e amendoim; observou a transformação de alimentos em produtos, onde a segurança alimentar não é objetivo. 

Sua trajetória como ativista começou após superar uma situação de violência doméstica. Xica conheceu a economia solidária e, com outras mulheres, criou um grupo para a geração de renda e empoderamento feminino. Na feira, venderam pães, biscoitos e peças de artesanato. Juntas perceberam que a economia solidária* oferece liberdade, autonomia e pertencimento; e é uma das soluções para a emergência climática e soberania alimentar. Seu trabalho está enraizado no respeito à natureza e na valorização do saber popular. 

A partir da relação entre clima, alimentação e produção, entendo que, para a justiça climática é preciso o cuidado com a terra e justiça social: “A gente está aqui em frente a um pé de bergamota que comemos uma geleia maravilhosa. A gente tem essa coisa de pegar no campo, de plantar, de combater o desperdício. A gente não joga nada fora, a gente aproveita a polpa, aproveita a casca, aproveita a semente.”

Com o tempo, Xica percebeu que suas práticas estavam também enfrentando as mudanças climáticas, que plantar alimentos pode ser resistência, cuidado com a terra e também promoção de saúde.“No início eu não entendia que era um enfrentamento às mudanças climáticas. Em 2019, com a pandemia, começou a faltar comida, começou a faltar tudo… A gente montou um projeto para plantar, para além de plantar e comer, ter aquele grupo de convivência, para não entrar na depressão.”

Se pudesse plantar uma semente do futuro, Xica sabe exatamente o que ela conteria: “carinho, amor, solidariedade, o coletivo e a família. A gente tem que retomar os cuidados, o respeito.” A ativista semeia o futuro com afeto, coragem e resistência. Entre hortas, panelas, feiras e círculos de convivência, cultiva uma economia solidária que alimenta, liberta e transforma vidas, são pessoas como ela que garantem a segurança alimentar do Brasil e dos brasileiros.

> Leia o artigo de Xica da Silva na publicação “Quem Precisa de justiça climática no Brasil?”

*A “economia solidária”, defendida pelo economista Paul Singer, se baseia na cooperação, autogestão e solidariedade entre os membros de um empreendimento, buscando resultados econômicos sem visar o lucro individual. Em vez da competição e exploração, a economia solidária prioriza o bem-estar coletivo, a igualdade e a distribuição justa dos resultados do trabalho.

Xica da Silva na Apremavi colhendo bergamota no encontro do comitê das Defensoras por Defensora

Xica na Apremavi colhendo bergamotas e cozinhando com Miriam Prochnow e Angela Mendes no encontro do comitê das Defensoras por Defensoras. Fotos: Thamara Santos de Almeida

Sementes de Futuro

Em busca de inspiração, a Apremavi apresenta nesta série diversas formas de viver de modo ativista. Pessoas que se dedicam a contribuir com um mundo mais sustentável e biodiverso, criando soluções e buscando promover mudanças nos desafios locais e globais do nosso presente.

 

Autores: Thamara Santos de Almeida e Vitor Lauro Zanelatto.
Foto de capa: Thamara Santos de Almeida..

Apremavi sedia encontro do comitê das Defensoras por Defensoras do Observatório do Clima

Apremavi sedia encontro do comitê das Defensoras por Defensoras do Observatório do Clima

Apremavi sedia encontro do comitê das Defensoras por Defensoras do Observatório do Clima

Evento fortalece círculo de mulheres defensoras de território e pauta socioambiental e avança na construção dos próximos passos da atuação em rede

Entre os dias 8 e 10 de julho de 2025, a Apremavi recebeu em em Atalanta (SC) o encontro do comitê de coordenação do grupo das Defensoras por Defensoras, iniciativa que acontece no âmbito do Observatório do Clima que reúne mulheres de diferentes regiões do Brasil engajadas na defesa dos seus territórios e da luta socioambiental.

O evento teve como objetivo aprofundar os diálogos sobre os desafios enfrentados pelas defensoras em seus territórios, além de construir coletivamente os próximos passos do projeto “Clima e Cuidado”. A programação de três dias incluiu vivências, trocas de experiências, construção de estratégias e encaminhamentos que visam fortalecer a atuação das mulheres.

Foi muito estimulante sediar este encontro e poder, além de discutir as pautas prioritárias do grupo, falar um pouco das atividades da Apremavi, num ambiente onde as mulheres se sentiram muito acolhidas. Como uma das integrantes do grupo, poder mostrar em campo o trabalho na defesa, conservação e restauração da Mata Atlântica é muito gratificante. Restaurar florestas é uma das maneiras mais eficientes de mitigar o efeito das mudanças climáticas e isso também é um dos temas do grupo“, relata Miriam Prochnow, cofundadora e diretora da Apremavi.

O primeiro dia do encontro foi marcado por uma visita guiada ao Viveiro Jardim das Florestas, carro-chefe da Apremavi, referência na produção de mudas nativas da Mata Atlântica. Em seguida, realizaram a Trilha da Restauração, uma imersão prática em áreas restauradas pela instituição sob diferentes metodologias.

O segundo dia começou com uma roda de conversa na qual cada mulher compartilhou os motivos que a levaram ao encontro, seus desafios e ameaças enfrentadas nos territórios. As falas revelaram histórias potentes de luta, resiliência e ancestralidade, reforçando a importância do espaço seguro para escuta e acolhimento por meio da dinâmica corpo-território.

“O Brasil é um dos países que mais mata pessoas que defendem o meio ambiente, precisamos fortalecer mulheres que protegem seus territórios com as suas vidas, o Defensoras por Defensoras é um espaço de fortalecimento, proteção, mas também de celebração, amor e alegria”, relata Tatianny Soares, facilitadora do GT de Gênero e Clima do Observatório do Clima, sobre a importância desse espaço.

Durante o encontro, foi reafirmada a identidade do comitê como um grupo de mulheridades que se fortalecem mutuamente, um espaço pedagógico, político e de formação continuada, com o objetivo de ampliar o alcance das ações e consolidar a sua governança. Foram definidos eixos estratégicos de atuação como formação continuada, pequenos fundos para defensoras e sistemas de proteção. Os próximos encontros incluem vivências e multiplicações em seus territórios.

O encontro  reforçou que, mesmo diante de múltiplas ameaças, a força coletiva, a solidariedade, o apoio, o afeto e o acolhimento são ferramentas políticas fundamentais para a transformação socioambiental. As Defensoras por Defensoras seguem firmes na construção de uma coalizão que valoriza o protagonismo feminino na defesa dos territórios e dos direitos das populações que os habitam. “Foi um momento de lembrar a caminhada enquanto defensoras para entender quem somos e o que queremos, trilhamos ações para os próximos meses e anos”, acrescenta Tatianny.

Reunião do Comitê das Defensoras por Defensoras do Observatório do Clima na Apremavi

Comitê das Defensoras por Defensoras em reunião na Apremavi, visitando a Trilha da Restauração da instituição e o Parque Natural Municipal da Mata Atlântica. Foto: Thamara Santos de Almeida.

Defensoras por Defensoras

Criado pelo GT de Gênero e Clima do Observatório do CLima o “Defensoras por Defensoras” teve sua primeira edição em 2021 como uma formação dedicada a ser um espaço de aprendizado, fortalecimento pessoal, social e político, além de acolhimento e troca mútua entre mulheres que atuam em diversas causas sociais e ambientais no Brasil.

Em março de 2025 foi realizada a exposição “Somos o Clima que Protegemos” no Museu do Amanhã como resultado da iniciativa. Uma árvore, peça principal da exposição, foi produzida pelas defensoras, junto a ela, um painel apresenta as fotos das defensoras e um vídeo conta as suas histórias.

Ao reunir mulheres com repertórios inspiradores e selecionadas por sua representatividade local e atuação territorial, o programa promoveu o desenvolvimento individual e coletivo, fortalecendo suas lutas socioambientais. Em 2024, o programa retorna, reunindo essas defensoras para continuar a troca de conhecimentos e experiências, ampliando a rede de apoio e potencializando a luta socioambiental no Brasil.

> Conheça o GT de Gênero e Justiça Climática do Observatório do Clima

 

Autora: Thamara Santos de Almeida.
Revisão: Miriam Prochnow.
Foto de capa: Thamara Santos de Almeida.

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