Serra Vermelha conquista proteção definitiva após 20 anos de mobilização
Serra Vermelha conquista proteção definitiva após 20 anos de mobilização
Decreto presidencial incorpora área ao Parque Nacional da Serra das Confusões e garante a conservação de um dos mais importantes remanescentes naturais do Nordeste brasileiro
Uma das mais emblemáticas lutas socioambientais do Brasil alcançou um desfecho histórico. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta terça-feira (10) o decreto que incorpora a área da Serra Vermelha ao Parque Nacional da Serra das Confusões, no sul do Piauí. São mais 92 mil hectares que agora se somam à área da UC. A medida garante a proteção definitiva da área, que, durante décadas, esteve ameaçada por projetos de produção de carvão vegetal e pela expansão de atividades que colocavam em risco sua biodiversidade.
Com a ampliação, o Parque Nacional da Serra das Confusões passa a abranger 923 mil hectares protegidos pela legislação federal, consolidando-se como uma das maiores Unidades de Conservação do país. Criado em 1998, com 523 mil hectares, e ampliado em 2010 com mais 300 mil hectares, o parque agora incorpora uma área considerada estratégica para a conservação da Caatinga e dos ecossistemas associados ao Cerrado e à Mata Atlântica.
A mobilização reuniu pesquisadores, ambientalistas, comunidades locais, organizações da sociedade civil e instituições públicas em defesa da Serra Vermelha, reconhecida como uma das áreas mais importantes para a conservação da biodiversidade do Nordeste.
Serra Vermelha
Localizada entre os municípios de Curimatá, Morro Cabeça no Tempo, Bom Jesus e Redenção do Gurguéia, a Serra Vermelha abriga um mosaico de ecossistemas formado pelo encontro da Caatinga, do Cerrado e de remanescentes de Mata Atlântica. Essa combinação cria condições excepcionais para a ocorrência de espécies da fauna e da flora, tornando a região uma importante área de transição ecológica.
Além de sua riqueza biológica, a Serra Vermelha desempenha um papel fundamental na proteção dos recursos hídricos. A região contribui para a recarga de aquíferos e para a manutenção de nascentes que abastecem importantes bacias hidrográficas brasileiras, como as dos rios Parnaíba e São Francisco.
Considerada uma floresta relictual, remanescente de formações vegetais muito antigas, a área constitui um patrimônio natural e científico de relevância nacional.
A luta contra a devastação
A mobilização em defesa da Serra Vermelha teve início em 2006, quando ambientalistas denunciaram um projeto da empresa JB Carbon S/A para transformar extensas áreas de vegetação nativa em carvão vegetal destinado à indústria siderúrgica. Na época, fotografias e levantamentos de campo revelaram o avanço do desmatamento em uma das últimas grandes florestas do semiárido nordestino.
A denúncia ganhou repercussão nacional e levou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a suspender o empreendimento. Em seguida, o Ministério Público Federal ajuizou Ação Civil Pública para impedir a continuidade do projeto.
Embora a iniciativa empresarial tenha sido interrompida, a proteção definitiva da área permaneceu pendente por quase duas décadas. Nesse período, estudos técnicos, pareceres científicos e decisões judiciais reforçaram a necessidade de incorporar a Serra Vermelha ao Parque Nacional da Serra das Confusões, mas a medida enfrentou sucessivos adiamentos devido a disputas políticas e interesses econômicos.

Algumas das diversas campanhas e mobilizações realizadas em prol da Serra Vermelha nos últimos 20 anos
Vitória histórica para a conservação
A assinatura do decreto representa uma conquista histórica para o movimento socioambiental brasileiro e para a conservação da biodiversidade. A decisão encerra uma das mais longas campanhas ambientais do país e garante a proteção definitiva de um dos mais importantes remanescentes naturais do Nordeste brasileiro.
“É a maior vitória ambiental no Nordeste nas últimas décadas. A campanha SOS Serra Vermelha teve o seu lançamento em dezembro de 2006 e, 20 anos depois, alcança seu final vitorioso”, afirma o fotógrafo André Pessoa, idealizador da Campanha SOS Serra Vermelha e participante ativo da luta em prol da UC.
Embora a criação da Unidade de Conservação represente o desfecho de uma longa mobilização, os desafios para a proteção da região continuam. Para Tânia Martins, coordenadora da Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA) e da Rede Ambiental do Piauí, que acompanha a campanha desde o início, a vitória precisa ser acompanhada de ações voltadas à recuperação das áreas degradadas ao longo das últimas décadas. “Essa história não é apenas sobre conservação ambiental, mas também sobre resistência. Durante esses 20 anos de luta pela proteção da Serra Vermelha, a região foi muito saqueada por grileiros, madeireiros e atividades minerárias. Por isso, além de celebrar essa conquista histórica, será necessário um grande esforço coletivo para recuperar os habitats degradados. A Serra Vermelha permanece de pé e, em tempos de crise climática, essa é uma vitória que interessa a toda a humanidade.”

Registros históricos de protestos, encontros no Ministério do Meio Ambiente, denúncias e visitas de campo na Serra Vermelha. Fotos: Arquivo Apremavi/RMA/André Pessoa
O envolvimento da Apremavi
Desde o início dessa mobilização, em 2006, a Apremavi somou esforços a diversas organizações da sociedade civil, a pesquisadores e movimentos socioambientais na defesa da criação do Parque Nacional da Serra Vermelha. Ao longo de quase duas décadas, a instituição participou de articulações, visitas de campo, ações de sensibilização e da produção de conteúdos que ajudaram a ampliar a visibilidade da causa e a fortalecer a mobilização em defesa da área.
Grande parte dessa articulação ocorreu no âmbito da Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), espaço de intercâmbio e cooperação entre organizações ambientalistas de diferentes regiões do país. Por meio dessa rede, foram elaboradas estratégias conjuntas para sensibilizar a sociedade e pressionar o poder público para a proteção definitiva da Serra Vermelha.
“A Serra Vermelha é um dos casos mais emblemáticos de conflito entre conservação ambiental e exploração predatória no Brasil. Este caso demonstra como a mobilização da sociedade civil, a atuação técnica e a pressão sobre as instituições podem impedir grandes crimes ambientais. Mas também revela como as respostas públicas podem ser lentas diante de ameaças tão graves e isso representa uma enorme vitória. Estamos muito felizes com essa reparação histórica”, destaca Wigold Schäffer, cofundador da Apremavi e um dos envolvidos na pauta desde o início da campanha.
Ao longo dos anos, a Apremavi também produziu materiais informativos sobre o tema, contribuindo para divulgar a importância ecológica da região e os riscos que enfrentava. Entre os conteúdos publicados estão: “Pela criação do Parque Nacional da Serra Vermelha”, “Por que salvar a Serra Vermelha?”, “Serra Vermelha perto de virar Parque” e em 2008 “Serra Vermelha em Perigo”

Semana da Mata Atlântica ocorrida em 2007, em Porto Alegre (RS), com manifestação em prol da Serra Vermelha. Foto: Miriam Prochnow
Autora: Thamara Santos de Almeida com informações do Corre Diário e do Governo Federal.
Revisão: Carolina Schäffer e Miriam Prochnow
Foto de capa: André Pessoa























